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Como o Acordo com o Irã afetará as guerras e crises no Oriente Médio?

gustavochacra

15 de julho de 2015 | 11h01

No post de ontem, comentei sobre o acordo com o Irã genericamente. Agora, tentarei responder a perguntas envolvendo o papel do regime de Teerã no Oriente Médio e como conflitos e crises regionais poderão ser alterados.

Apenas para ficar claro, o acordo envolve estritamente o programa nuclear iraniano com o objetivo de evitar que o Irã desenvolva uma bomba atômica. Não há nada no acordo sobre os direitos humanos no Irã ou o apoio do regime a grupos considerados terroristas pelos EUA. Além disso, o Congresso dos EUA ainda votará para decidir se rejeita ou aceita o acordo. Se rejeitar, o presidente Obama irá vetar. Para derrubar o veto presidencial (trata-se de um acordo executivo, não de um tratado internacional), seriam necessários dois terços dos votos no Senado e na Câmara, o que é improvável, mas não impossível.

Israel

Os EUA devem intensificar o apoio aos israelenses na área de segurança internacional. O governo Obama buscará dar todas as garantias de que Israel ficará mais seguro, especialmente na sua fronteira norte, onde o Hezbollah possui, no lado libanês, dezenas de milhares de mísseis apontados para o território israelense. Além disso, agora está aberto um canal de diálogo entre Washington e Teerã que pode ajudar a evitar escaladas neste fronteira no futuro

Palestina

O acordo com o Irã não deve afetar a posição dos EUA em relação ao conflito Israel-Palestina. O Irã havia se afastado deste conflito ao interromper seu apoio ao Hamas depois de o grupo trair o regime de Bashar al Assad e o Hezbollah na Guerra da Síria, ao apoiar grupos sírios. Talvez, o governo Obama reduza a pressão sobre Netanyahu como moeda de troca pelo acordo com o Irã, que irritou o premiê israelense

Síria

Há duas visões neste acordo, mas em ambas existe uma chance maior de coordenação internacional para combater o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Na primeira, os EUA convenceriam o Irã e a Rússia de que há alternativas para os dois países no futuro da Síria independentemente do regime de Assad. Na segunda, o Irã e a Rússia convenceriam os EUA de que Assad ainda é a melhor alternativa para a Síria. Na prática, atualmente, o governo Obama já tolera Assad. Por uma série de questões, Obama não apoiará nunca abertamente Assad, mas pode fechar cada vez mais os olhos para as ações do regime, enquanto retoricamente continuará apoiando a quase inexistente oposição moderada. Está totalmente descartada qualquer forma de coordenação entre os EUA e o Hezbollah (considerado terrorista pelos EUA), apesar de este ser o grupo que mais luta contra a Al Qaeda e o ISIS neste momento

Iraque

Os EUA e o Irã já são aliados dos mesmos atores no combate ao ISIS no Iraque. Os dois atuam ao lado do governo de Bagdá e dos curdos. Embora suas atuações sejam separadas, há uma coordenação indireta por meio dos iraquianos. Esta coordenação pode se ampliar. Os EUA ainda manterão cautela em relação a milícias xiitas para não irritar seus aliados sunitas no mundo árabe

Líbano

O acordo faz a balança pender levemente para a coalizão 8 de Março, formada pelo Hezbollah, AMAL (grupo xiita laico) e pelos principais grupos cristãos, como a Frente Patriótica Livre, de Michel Aoun. Isso pode ajudar na eleição de Aoun para a Presidência do Líbano ou talvez a de seu genro para o comando das Forças Armadas (ambos cargos são destinados a cristãos maronitas). A 14 de Março, formada por sunitas e outros grupos cristãos, certamente usará suas cartas para manter sua força. Mas o atual regime da Arábia Saudita afastou membros da Casa dos Saud que eram mais próximos de Saad Hariri. Há um risco de os sauditas abandonarem os sunitas moderados libaneses, para favorecer os radicais

Yemen

A intervenção da Arábia Saudita tem sido um fracasso total. Mas o Yemen não é uma prioridade dos iranianos. Os houthis, que seguem o zaidismo, uma vertente do islamismo xiita, têm uma agenda local, independente do Irã. Além disso, a guerra tem 4 principais lados. O primeiro é formado pelos houthis e o ex-presidente Saleh, que conta com a simpatia do Irã, mas não apoio. O segundo, formado pelos separatistas do sul. O terceiro, bem mais fraco, do presidente deposto Hadi, apoiado pelos sauditas e supostamente pelos EUA. O quarto é a Al Qaeda, que tem sido muito beneficiada pela intervenção saudita. Os EUA não irão se envolver neste conflito para não desagradar a Arábia Saudita, também insatisfeita com o acordo com o Irã

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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