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Como o Qatar deixou o Hamas sem aliados no mundo árabe?

gustavochacra

25 Novembro 2014 | 14h25

O restabelecimento nas relações do Qatar com a Arábia Saudita e os outros países do Golfo tende a isolar ainda mais o Hamas. Depois do acordo Doha-Riad anunciado na semana passada, o grupo palestino não tem, praticamente, nenhum país árabe ou islâmico ao seu lado neste momento. Ao mesmo tempo, nações árabes da região cada vez mais se aproximam geopoliticamente de Israel.

Nos últimos anos, o mundo islâmico estava dividido em quatro grupos no Oriente Médio. 1) o do Irã, formado pelo regime de Teerã, Bashar al Assad, Hezbollah e Iraque; 2) o da Arábia Saudita, formado pelos países do Golfo mais o Egito; 3) o do Qatar, liderado por Doha e com a presença da Irmandade e do Hamas, além de apoio retórico da Turquia; 4) e o do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh). Todos estes grupos são inimigos ou ao menos rivais entre si, embora em alguns casos atuem em coordenação.

O Hamas estava rompido com o grupo do Irã (1) desde quando traiu Assad e decidiu apoiar os rebeldes sírios no início da guerra civil em 2011. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Egito (2), no seu combate à Irmandade, decidiram também isolar o Hamas e se aproximar de Israel. O ISIS, por sua vez, enxerga o Hamas como um rival e ligado ao islã político da Irmandade e não ao ideal de estabelecer um califado islâmico.

Havia sobrado, para o Hamas, uma enfraquecida Irmandade Muçulmana, colocada na clandestinidade no Egito e com todos os seus líderes presos depois da queda de Mohammad Morsi, o Qatar e a Turquia. E, mesmo assim, no caso do Qatar, financeiramente, mas jamais militarmente. No da Turquia, apenas retórico do ex-premiê e agora presidente Recep Tayyp Erdogan – o Exército turco possui boas relações com Israel e integra a OTAN.

O Qatar, porém, optou na semana passada por restabelecer relações com a Arábia Saudita. O país desistiu de levar adiante uma política externa independente implementada pelo ex-emir xeque Hamad bin Khalifa al Tani. Seu filho e novo emir, xeque Tamim Hamad bin Khalifa al al Tani, tem uma preocupação maior com a imagem do Qatar no exterior, querendo manter a Copa do Mundo de 2022 como prioridade, além de difundir a imagem de Doha como centro comercial e cosmopolita no golfo, rivalizando com Dubai.

Sem o Qatar e com a Irmandade em colapso, não sobrará ninguém para ajudar oHamas. Alguns falam de uma reaproximação com o Irã. Mas o regime de Teerã possui outras prioridades e problemas – negociações com os EUA e combate ao ISIS na Síria e no Iraque. Sem dúvida, braços das Guardas Revolucionárias mantêm contatos com os grupos palestinos. Mas a preferência será por armar Assad, o Iraque e o Hezbollah.

O problema é que este enfraquecimento do Hamas pode levar tanto a uma moderação como a uma radicalização do grupo. O certo, porém, é que o Qatar passou a integrar a aliança dos países árabes com os mesmos interesses geopolíticos de Israel. Nunca os israelenses tiveram tantos amigos entre seus vizinhos.

A Turquia, por sua vez, evitará atritos com a Arábia Saudita ao mesmo tempo que seguirá com sua boa relação bilateral com o Irã. O apoio ao Hamas será, como sempre, por meio de discursos inflamados de Erdogan. Mas não irá além disso. Israel e Turquia seguirão com a sua aliança militar.

Obs. Texto originalmente publicado na newsletter Rua Judaica

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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