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Como o Superbowl e o Snowboard podem dar a Copa do Mundo aos EUA

gustavochacra

07 de fevereiro de 2010 | 14h19

Os americanos costumam dizer que bilhões de pessoas ao redor do mundo assistem ao Superbowl, muitas vezes descrito como o evento esportivo de maior audiência no mundo. Sabemos que não é bem assim. No Brasil, nos anos 1980, era comum algumas pessoas perderem um domingo à noite para ver jogos do Denver Broncos ou do Dallas Cowboys no Show do Esporte na TV Bandeirantes. Era uma época em que Luciano do Valle conseguiu difundir alguns esportes americanos no Brasil, como a Fórmula Indy, e levar adiante o mito Maguila e a seleção brasileira de Masters.

Atualmente, no Brasil, imagino que o Superbowl seja transmitido na TV a cabo e tenha uma audiência de “nicho”, como costumam dizer no marketing. Seriam adolescentes e jovens adultos que viveram nos EUA ou ganharam interesse pelo futebol americano através de videogames ou mesmo assistindo a partidas na TV. Mas estamos longe de dizer que milhões de brasileiros param para ver o Superbowl. Não é muito diferente na Europa, na África, no Oriente Médio. O evento certamente possui menos audiência do que uma final de Copa do Mundo e provavelmente bem menos do que a final da Copa dos Campões na Europa.

Porém, nos EUA, é o grande evento esportivo do ano, apesar de o futebol americano não ser necessariamente o esporte mais popular do país. Na verdade, existem três grandes esportes. O baseball sempre foi descrito como o maior passa-tempo dos americanos. Os times jogam bem mais de cem vezes na temporada, quase sempre com estádios lotados. Os craques costumam ter nomes hispânicos, como Alex Rodriguez, ou asiáticos, como Matsui. No passado, também tinham os italianos, como Joe DiMaggio. O basquete teve seu auge nos anos 1980 e 1990, com uma gerações de gênios, como Larry Bird, Magic Johnson e, acima de tudo, Michael Jordan – este último, certamente um dos maiores atletas da história da humanidade, independentemente do esporte. E, claro, existe o futebol americano, marcado pelos quarterbacks, que possuem a função de armar as jogadas de seus times, como o craque Peyton Manning, em campo hoje pelo Colts, Tom Brady, marido da Gisele Bündchen, ou heróis do passado, como Joe Montana.

Definir o mais popular fica difícil. Depende da cidade e da geração. O baseball certamente é o esporte mais acompanhado em Nova York, onde há o Yankees, melhor equipe dos EUA, e em Boston, com o mítico Red Sox. Los Angeles e San Antonio preferem o basquete. Dallas, Denver, Indianápolis e muitas outras cidades americanas são fãs do futebol americano. Nas universidades e nas high-schools, não há discussão. O futebol americano é disparado o mais popular e uma série de cerimônias, como o home coming, são celebradas ao redor de partidas. Universidade como Notre Dame construíram seu nome com os seus times futebol americano. O basquete possui alguma importância, enquanto as partidas universitárias de baseball são praticamente ignoradas. Os craques do futebol americano cursaram universidades, onde são recrutados para jogar em times profissionais. Os de baseball, muitas vezes, são buscados em peneiras em San Pedro do Macuri, conhecida como a terra dos “peloteros” na República Dominicana. A final do futebol americano, conhecida como Superbowl, apenas tem mais audiência por ser um jogo único, enquanto no basquete e no baseball as disputas são definidas em uma série de partidas.

Porém, ironicamente, o esporte mais praticado dos EUA não é nenhum dos três acima. É o futebol nosso, denominado “soccer” pelos americanos. Contribui, claro, o fato de ter adeptos dos dois sexos e ser mais simples de ser disputados, sendo necessária apenas uma bola – neste quesito, apenas o basquete pode ser equiparado.

Por este motivo, como escrevi aqui certa vez, não é difícil prever que os EUA, em breve, se tornem uma potência mundial deste esporte. Precisaria ocorrer com o futebol o que vem sucedendo com o snowboard. Até uma década atrás, os melhores atletas das neves optavam pelo esqui na hora de competir, considerando o snowboard uma atividade marginal. Hoje, isso mudou. O esqui virou dos “nerds”, como me disseram em Aspen, enquanto o snowboard atrai os grandes talentos. Consequentemente, os principais ídolos americanos na Olimpíada de inverno, que começa nesta semana no Canadá, usam pranchas e não esquis.

No futebol, os atletas ainda são os nerds. Não houve essa mudança. Mas, aos poucos, alguns dos grandes talentos decidem marcar gols em vez de fazer touchdowns, homeruns ou cestas. Será questão de tempo para um Michael Jordan ou um Peyton Manning, na high school, digam que querem entrar no time de futebol, e não no basquete ou no futebol americano. Neste dia, os EUA poderão conquistar uma Copa do Mundo. No snowboard, iniciado em Vermont nos anos 1980, esta mudança não demorou nem uma década. Sem falar na capacidade americana de montar times, como o de hóquei em 1980, o de vôlei, em 1984, e o de pólo aquático, no ano passado.

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