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Como os Cristãos Melquitas (Grego-Católicos) ajudam a explicar a Guerra da Síria

gustavochacra

04 de novembro de 2013 | 19h36

Na tarde deste domingo, pude conversar por horas com o Arcebispo da Igreja Melquita do Vale Beqaa, Furzol e Zahle no Líbano. O monsenhor Darwish me explicou como anda a situação dos cristão sírios. Resumindo, conforme já havia escrito aqui diversas vezes, eles apoiam o governo de Bashar al Assad porque este garante a liberdade religiosa para o cristianismo. Os rebeldes da oposição, em sua maioria, são extremistas islâmicos ligados à Al Qaeda, segundo o arcebispo.

Inclusive, o bispo frisou que os cristãos da vila de Maloula precisaram buscar refúgio em Damasco para fugir da perseguição dos rebeldes. Uma das duas últimas cidades do mundo onde a língua majoritária era o aramaico está vazia. Na capital síria, os cristãos, de acordo com o arcebispo, podem ir à missa sem se preocupar com os radicais da oposição.

Mas, imagino, muitos de vocês devem se perguntar o que são os melquitas. Trata-se da Igreja Grego-Católica, ou Rom-Catholic, em árabe, com Rom significando Bizâncio. Eles respeitam a autoridade papal, por isso “católicos”, mas possuem um Patriarca e a liturgia segue a linha ortodoxa, oriental – por este motivo, “gregos”.

O nome melquita vem de seguidores do rei e inicialmente era usado de forma pejorativa. Afinal, se referem aos cristãos que aceitaram as decisões do Conselho da Caledônia, no século 5. Malkoyo significa “rei” (ou imperador) em siríaco, uma língua derivada e próxima do aramaico – e que daria em maliki, árabe. Os melkitas seriam aqueles que seguem o rei.

Atualmente, os melquitas se concentram especialmente no Líbano e na Síria. Em ambos, são minorias entre os cristãos. Representariam entre 10 e 15% dos seguidores do cristianismo nestes dois países.  Politicamente, acabam sendo neutros, entre os mais numerosos cristãos ortodoxos e cristãos maronitas. Afinal, possuem a liturgia de um (ortodoxos) e seguem o Vaticano como o outro (maronitas) – os maronitas possuem liturgia própria, também distinta dos católicos romanos.

Por serem minoria dentro da minoria, os melquitas, obviamente, buscam se proteger para sobreviver. E temem pelo futuro da Síria. Na avaliação deles, portanto, que conhecem como poucos o que é ser cristão no Oriente Médio, o cenário para o cristianismo árabe parece ser gravíssimo. Mesmo assim, melquitas ajudam não apenas membros da própria religião, como também de outras, incluindo muçulmanos, na sua arquidiocese em Zahle.

Curiosamente, muitos imigrantes libaneses no Brasil são de origem melquita, incluindo a família da minha avó materna – meu avô era cristão ortodoxo.