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Como os EUA viram os protestos no Brasil? E qual a nossa imagem?

gustavochacra

24 Junho 2013 | 12h51

Ao longo das últimas duas semanas, venho sendo perguntado sobre qual a repercussão dos protestos no Brasil aqui nos Estados Unidos.

Inicialmente, foi ignorada. Mas, com o crescimento do movimento, o New York Times passou a dedicar um amplo espaço às manifestações, com ótimas reportagens de seu correspondente Simon Romero. O blog The Lede, do próprio jornal de Nova York, também trouxe para os americanos detalhes dos acontecimentos, incluindo vídeos dos manifestantes.

Por pelo menos três dias, o assunto chegou à primeira página do mais tradicional diário norte-americano. Houve ainda um editorial didático e a publicação de um artigo da escritora Vanessa Barbara. Na internet, abriram espaço para um debate com as opiniões de brasilianistas (acadêmicos especializados em Brasil nos EUA) e também especialistas brasileiros.

O Wall Street Journal e o Financial Times realizaram boas reportagens e publicaram análises ao longo da semana. Os dois jornais certamente deixaram seus leitores bem informados sobre o Brasil. Publicações regionais, como o Chicago Tribune, apelaram a agências de notícias, mas colocaram o Brasil em suas páginas.

Nas TVs, certamente a Al Jazeera em inglês esteve na vanguarda com uma série de reportagens. A CNN International cobriu relativamente bem, embora a CNN americana (são distintas) tenha a dado pouco destaque, assim como a Fox News e a MSNBC, que são as duas maiores redes de notícia (CNN é terceira). Os protestos também foram exibidos nos telejornais das principais redes de TV dos EUA  (NBC, CBS e ABC) em alguns dias da semana.

No Briefing do Departamento de Estado, onde os temas de interesse americano no dia são abordados, o Brasil apareceu em duas oportunidades na semana passada. Em ambas, o governo americano frisou que trata-se de um país democrático. Raramente, ao longo do ano, o Brasil é citado no briefing  – assim como a Alemanha, o Canadá e o México. Os países que mais frequentam são Síria, Irã, Israel, China, Rússia, Coreia do Norte e Egito.

Americanos e outros estrangeiros demonstravam curiosidade e surpresa com os protestos no Brasil. Não que sejamos uma Suécia, mas o país esteve na moda em 2010 e 2011. Desde o ano passado, com a desaceleração da economia, passou a ser visto com ceticismo por investidores. Mas a imagem negativa ainda não havia chegado ao grande público. Ainda éramos um dos grandes do BRICs, uma potência regional com uma Copa do Mundo e uma Olimpíada pela frente. Ninguém previa estas manifestações, especialmente durante a Copa das Confederações – que vem sendo exibida ao vivo na ESPN americana.

Senti falta, apenas, dos articulistas do New York Times escreverem sobre o assunto para complementar as reportagens do Simon Romero. Mas a maior parte deles possui pouco conhecimento do Brasil, sendo mais focada em outras regiões do mundo, como o Oriente Médio e a China.

O impacto dos protestos, no fim, foi similar aos que ocorreram em Israel, na Espanha, na França e Inglaterra nos últimos anos. Mas ficou abaixo das manifestações na Turquia e no Egito.

A diferença se deveu a dois motivos. Primeiro, no Egito, as manifestações levaram a uma nova era no mundo árabe. Ditaduras foram derrubadas em países como a Tunísia (o primeiro, mas bem menos relevante que o Egito), Líbia e Yemen, além de uma guerra civil na Síria, massacres contra opositores na Arábia Saudita e Bahrain e prisão de manifestantes na Jordânia.

A Turquia, por sua vez, é uma potência emergente como o Brasil, mas localizada entre a Europa, Irã, Iraque, Síria e ex-União Soviética. Além disso, é uma democracia de maioria islâmica e integrante da OTAN.

Em segundo lugar, o Brasil há algum tempo é visto como uma nação de classe média, com demandas similares a existentes em países como a Espanha, Israel, Inglaterra e França. Existem diferenças, sem dúvida. O desemprego não é um problema. Não há elevada imigração recente no país. A desigualdade se reduziu nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, a população, como em outros países, se cansou dos seus governantes e da classe política como um todo diante de uma série de problemas que no Brasil incluem a falta de segurança, corrupção (tema presente em praticamente todos os países), transportes e falta de investimentos em educação e saúde.

Empresas de marketing costumam avaliar seus produtos os comparando a pessoas. Se o Brasil fosse uma pessoa, nos EUA, seria visto como um novo rico, gente fina, com opiniões próprias muitas vezes diferentes das americanas, alguns problemas pessoais comuns e que ainda não garantiu totalmente o seu futuro.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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