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Como Trump, um bufão preconceituoso, deve virar candidato republicano?

gustavochacra

24 de fevereiro de 2016 | 10h58

Depois da massacrante vitória de ontem no cáucus de Nevada, Donald Trump está muito próximo de ser o candidato republicano nas eleições presidenciais de novembro. O empresário é favorito em 11 dos 12 Estados onde haverá primárias na próxima terça, conhecida como Super Tuesday. Bolsas de apostas indicam que ele tem 65% de chance de ser o escolhido do partido – basicamente, dois terços.

É inacreditável, mas Trump pode ser o escolhido do Partido Republicano mesmo sem ter o apoio de nenhum governador, senador ou deputado republicano. Sem ter o apoio da Fox News, a rede de TV mais associada aos republicanos. Sem ter o apoio do Wall Street Journal, principal jornal com ideologia mais próxima dos republicanos. Sem ter o apoio e sendo duramente criticado pela National Review, mais tradicional publicação conservadora dos EUA. Sem ter o apoio dos ultra bilionários Koch Brothers (30 vezes mais ricos do que Trump), mais importantes doadores dos republicanos. Sem ter o apoio de estrelas conservadoras, como Glenn Beck. Sem ter o apoio do Tea Party. Sem ter o apoio dos libertários. Sem ter o apoio dos Rockefeller Republicans. Sem defender o livre o mercado, adotando uma política protecionista, contra as tradições republicanas. Sem ser religioso.

Trump pode ser o escolhido mesmo tendo tirado sarro do senador John McCain, senador há décadas, ex-candidato republicano à Presidência e um dos maiores heróis da Guerra do Vietnã – Trump ficou com medo de ir à guerra. Trump chamou George W. Bush, último presidente republicano dos EUA, de mentiroso. Trump disse que obrigará o México a pagar pela construção de um muro na fronteira, embora isso seja impossível sem uma invasão militar e tomada a força do dinheiro no Banco Central mexicano, em um conflito militar contra o México, um aliado, que resultaria em dezenas de milhares de mortos e provável fracasso. Trump indicou que os imigrantes que cruzam a fronteira para os EUA são em sua maioria estupradores e criminosos. Trump disse que irá barrar muçulmanos dos EUA, uma medida que, além de preconceituosa, é impossível de ser implementada pois não dá para determinar a religião de alguém.

Trump inventou que milhares de muçulmanos celebraram o 11 de Setembro em New Jersey. Trump inventou que, há cem anos, um general conseguiu acabar com o terrorismo islâmico, inexistente na época, ao matar 49 muçulmanos com balas banhadas no sangue de porco. Deixou um vivo para contar a história. Trump tirou sarro de um repórter deficiente físico do New York Times. Trump ataca verbalmente mulheres.

Mas, de forma inacreditável, Trump deve derrotar nas primárias os governadores de Nova Jersey, Ohio e Wisconsin; os ex-governadores do Texas, Louisiana e Flórida; senadores da Florida, Texas e Kentucky. Derrotará figuras sérias e competentes como Jeb Bush e John Kasich. Deve derrotar o jovem carismático Marco Rubio (o senador ainda tem uma chance remota).

Por que? Porque a elite do partido sempre achou corretamente que Trump é um palhaço racista e xenófobo. Em algum momento, imaginavam, os eleitores perceberiam o quão absurdo seria escolher um candidato como ele. Isso não aconteceu.

A política dos EUA se divide em 1/3 democrata, 1/3 republicano e 1/3 independente. Trump tem 1/3 dos votos republicanos. Isso significa 1/9 do eleitorado do país. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para vencer primárias, independentemente do que digam as elites do partido.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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