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Como um brasileiro que vive nos EUA vê a Copa no Brasil?

gustavochacra

24 de fevereiro de 2014 | 13h05

Hoje darei uma aula na Universidade Columbia sobre Soccer and Economics, junto com o Sunil Gulati, presidente da US Soccer, que seria o equivalente da CBF dos Estados Unidos, em evento organizado pelo professor Sidney Nakahodo e presença do professor Albert Fishlow, um dos maiores especialistas em Brasil nos EUA. Certamente, nós  falaremos sobre a Copa do Mundo. Mas minha visão é, hoje, de um brasileiro que vive no exterior, distante dos acontecimentos. Neste texto abaixo, descreverei como vejo o Mundial no Brasil no campo econômico, político, social e esportivo. Críticas e, acima de tudo, recomendações são bem vindas. Afinal, nunca vi um tema no qual os brasileiros sejam tão preparados como no dos “efeitos da Copa para o Brasil”

Economia

 A economia brasileira cresceu pouco nos últimos anos, anteriores à realização da Copa do Mundo. Até 2011, éramos o país da moda aqui nos EUA. Mas a performance do PIB em 2012 e 2013 foi medíocre e passamos a ser visto com cautela.

Uma previsão do Itaú-Unibanco  de três anos atrás dizia que a realização do Mundial  elevaria o PIB do Brasil em 1,5 ponto percentual por ano. Como nossa economia cresceu 0,9% em 2012 e 2,5% em 2013, teoricamente, sem a Copa, teríamos tido um encolhimento do PIB em 2012 (- 0,6%) e um crescimento anêmico de 1% no ano passado. O Ministério do Esporte, no fim de 2012, fez uma previsão de que a Copa contribuiria para o crescimento do PIB em  0,4 ponto percentual até 2019. Neste caso, o impacto seria um pouco menor, mas ainda assim a economia teria crescido pouco.

A previsão atual é de que o PIB fique em 2% ou menos para 2014, já levando em conta o efeito do Mundial (segundo as previsões, com impacto variando de 0,4 pp a 1,5 pp). Conforme demonstra levantamento feito pela Agência Estado, o Brasil seria o terceiro país nas últimas três décadas a registrar desaceleração da economia no ano da Copa do Mundo – os demais foram México (1986), Itália (1990) e Japão (2002). Estes três são também os únicos que tiveram um crescimento do PIB abaixo da média Mundial no mesmo ano – o Brasil deve ser o quarto, já que a média mundial, segundo o FMI, deve ser de 3,6%. EUA, França, Coreia do Sul, Alemanha e África do Sul obtiveram bons resultados, embora não esteja claro se causados ou não pela Copa – como diz o professor Fishlow, a Grécia fez a Olimpíada de 2004 e veja a sua situação hoje.

A conclusão é de que a Copa do Mundo poderá contribuir para o aumento do PIB brasileiro, mas será insuficiente ajustar a economia e provocar um crescimento elevado

Infraestrutura

Foram necessários bilionários investimentos em infraestrutura no Brasil para a Copa do Mundo. Diversos setores, como os aeroportos, são extremamente precários no Brasil e precisaram ser ampliados ou reformados. Ainda assim, existe temor de que haja caos aéreo durante o período da Copa do Mundo, além de outros transtornos urbanos, como recordes de trânsito. Portanto as obras talvez sejam insuficientes para o Mundial. Por outro lado, certamente, o cenário será melhor no futuro do que antes das obras para a Copa. Sem o torneio, é bem provável que os aeroportos brasileiros permanecessem entre os piores do mundo. Mas, a pergunta, neste caso, é o de por que o Brasil não investiu em seus aeroportos mesmo sem a Copa, como ocorre em quase todos os países dom mundo, incluindo o Haiti pós-terremoto e o Líbano pós-Guerra?

Já os estádios envolvem uma questão mais complexa. Fica difícil justificar tanto investimento em arenas de cidades como Manaus, Cuiabá e Brasília, sem nenhuma tradição futebolística. Por que são sedes? Como ficarão os estádios depois da Copa do Mundo?

Em São Paulo, a questão maior é sobre a necessidade de ter construído um novo estádio, se já existia o Morumbi ou mesmo o Pacaembu. Há argumentos contra e a favor o Itaquerão e não vou me aprofundar. Uma crítica importante a ser feita é o atraso impressionante nas obras, como vemos em Curitiba, se comparado a outras sedes de Mundiais, incluindo a África do Sul, uma nação emergente como o Brasil. De qualquer maneira, Istambul terá quatro estádios padrão Fifa mesmo sem a Copa do Mundo quando a nova arena do Besiktas ficar pronta. Vale como comparação ao Brasil, afinal são duas economias emergentes.

Política e sociedade

Os brasileiros sempre se colocaram como um povo passivo, quando comparados mesmo a vizinhos supostamente mais politizados como os argentinos. Aceitaríamos tudo e o Mundial ocorreria sem problemas porque somos o país do “pão e circo”. Na verdade, porém, a sociedade brasileira talvez tenha sido a que mais monitorou e criticou suas autoridades na realização do Mundial.

Na África do Sul, Alemanha, Japão e Coreia do Sul, não havia uma população tão engajada em busca de transparência na realização da Copa. No Facebook, no Twitter, é admirável como os brasileiros entendem todos os problemas do país e possuem uma opinião forte sobre a Copa do Mundo – sem dúvida, as redes sociais, menos influentes até 2010, contribuíram para um maior debate entre os brasileiros.

De acordo com pesquisa do Ibope/Estadão, a população está dividida sobre a realização da Copa. Para 43%, haverá benefícios. Outros 40%, pensam o contrário – um empate técnico pois está dentro da margem de erro. A maioria (58%) concorda com a realização da Copa do Mundo no Brasil.  Outros 38% preferiam que fossem em outro país.

No Nordeste, o apoio chega a 72%, contra 49% no Sudeste, em uma clara divisão geográfica das opiniões.

Neste sentido, a Copa foi um enorme avanço para a sociedade brasileira exigir mais transparência de suas autoridades e adotar uma visão crítica do país, mesmo envolvendo uma suposta paixão nacional, como o futebol – não somos tão fanáticos quanto espanhóis, ingleses, argentinos e turcos.

Imagem do Brasil e Turismo

O Brasil tem uma boa imagem no exterior. Normalmente, somos associados a coisas positivas, como o próprio futebol, música, população alegre, belezas naturais, sem problemas bélicos ou políticos graves e economia emergente. Por outro lado, sabem também dos problemas com a criminalidade, infraestrutura e desigualdade social, apesar da redução nos últimos anos – corrupção é irrelevante, pois todos os países do mundo possuem corrupção na política doméstica e este tema raramente gera interesse externo, a não ser quando surge um prefeito viciado em crack como o de Toronto, a mais desenvolvida cidade do Canadá, país considerado exemplo internacional.

Ainda assim, o Brasil não é um país que atrai turistas. Por que? Primeiro, a distância. Um europeu do norte possui maior facilidade para ir a uma praia no litoral de Portugal ou da Espanha. É mais barato e mais próximo do que pagar US$ 1.300 (jogando baixo) e encarar 11 ou 12 horas de voo até o Rio. O mesmo se aplica aos americanos. Além de terem a Califórnia, Havaí, Colorado e a Flórida, estão a algumas horas das fantásticas praias do Caribe, Costa Rica e México.

Em segundo lugar, existe a questão de cidadãos de países emergentes terem a tendência de querer visitar a Europa e os EUA em detrimento de outros países emergentes. Mais brasileiros e colombianos vão à Miami do que brasileiros à magnifica Cartagena ou colombianos ao Rio. Uma rara exceção seria o turismo bilateral do Brasil com a Argentina.

Por último, o Brasil não tem uma infraestrutura avançada para o turismo se comparado mesmo a países emergentes, como o México ou Turquia.

A Copa certamente atrairá um número inédito de turistas ao Brasil. A experiência deles no país será decisiva para o futuro do turismo no país. Se gostarem, voltarão a Manchester, Hamburgo, Turim, Nova York e Bogotá incentivando seus conterrâneos a visitarem Fortaleza, Salvador ou Manaus. Caso a experiência seja ruim, a Copa pode até prejudicar o turismo no longo prazo.

Algumas publicações estrangeiras publicaram reportagens negativas sobre o Brasil que repercutiram bastante entre os brasileiros. Há algumas verdades, alguns exageros e algumas mentiras (parte delas acrescidas por brasileiros em redes sociais). Mas, como os brasileiros também costumam acreditar em reportagens sobre outros países, é provável que estrangeiros não duvidem de seus jornais. Mas noto que há também reportagens positivas. Na exibição do encerramento das Olimpíadas de Sochi, a NBC mostrou fantásticas imagens do Rio de Janeiro para falar dos Jogos de 2016. Daquelas que dá vontade de pegar o avião e embarcar imediatamente para o Brasil.

Esportes

A Copa do Mundo não contribuiu em nada para o desenvolvimento do futebol no Brasil. O Campeonato Brasileiro do ano passado teve uma média de público inferior ao dos Estados Unidos (o de Soccer mesmo), há um escândalo envolvendo o rebaixamento, a seleção teve troca de técnico durante o ciclo de preparação para a Copa, estamos em uma posição ruim no ranking da Fifa e não há nenhum programa relevantes para a revelação de jogadores.

Com a Copa ou sem a Copa, no fim, o resultado será determinado pela conquista ou não do Hexa. Não haveria diferença se o torneio fosse realizado em outro país. Infelizmente, ao contrário dos EUA, onde o Mundial serviu para a criação da bem sucedida Major League Soccer, no Brasil será inútil. 

Conclusão

A Copa do Mundo pode beneficiar um pouco o PIB brasileiro, ainda que de forma insuficiente para alavancar a economia do país. Mas será que valeria todos estes investimentos do governo? Talvez, se levássemos em conta que, sem a Copa, os aeroportos, por exemplo, permaneceriam como os mais atrasados no mundo. A Copa poderá afetar para o bem ou para o mal de forma definitiva o turismo e a imagem do país dependendo de como for o andamento do torneio – turistas assaltados e caos aéreo teriam um impacto enorme. O futebol, por sua vez, continua dependente do surgimento de craques como Neymar, sem um planejamento de base, como vem ocorrendo nos EUA. O campeonato nacional continua desorganizado. Já a sociedade brasileira demonstrou um enorme avanço ao adotar uma visão crítica da Copa.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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