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Como um herói curdo pode ser considerado terrorista pela Turquia?

gustavochacra

10 de agosto de 2015 | 10h08

Sempre escrevo que o Oriente Médio é um lugar complexo. Imagine que você seja curdo, por exemplo. Dependendo do lugar que você estiver, você pode pode ser considerado um herói no combate ao ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) ou um militante terrorista para a Turquia. Também influencia quem te classificará.

Os guerreiros curdos do Curdistão iraquiano, conhecidos como Pesh Merga, são considerados fundamentais no combate ao ISIS no Iraque. São idolatrados de Washington a Londres, de Teerã a Tel Aviv, de São Paulo a Tóquio.

Caso este curdo, porém, lute em áreas mais próximas à fronteira do Iraque com a Síria e seja leal ao PKK, será considerado terrorista pela Turquia e sofrerá bombardeios. E não adianta argumentar que este guerreiro lute contra o ISIS. Não interessa. Para as Forças Armadas da Turquia, este curdo pode ter sido um herói em batalhas contra o ISIS que ainda assim será terrorista.

Os EUA não farão nada para ajudar este curdo, a não ser que ele cruze a fronteira para a Síria. Neste caso, ele em teoria passará a integrar o grupo curdo YPG, que é basicamente a mesma coisa que o PKK e, portanto, considerado terrorista pela Turquia. Estes “terroristas”, segundo a Turquia, são, no entanto, o principal grupo na Síria combatendo o ISIS e agem em coordenação com os EUA.

Complicou? Complica mais. Estes curdos do YPG são os responsáveis por avisar os americanos onde estão os militantes do ISIS para serem bombardeados. O problema é que a Turquia passou a integrar a coalizão que combate o ISIS desde que possa também bombardear os curdos do YPG que são os principais aliados americanos no combate ao ISIS. Isso mesmo.

Mas, óbvio, a complexidade aumenta. O YPG, além de agir em coordenação com os EUA, também atua em parceria com o regime de Bashar al Assad, que é inimigo dos EUA. Mas, vale notar, o YPG é aliado de Assad e dos EUA para combater os ISIS. Não podemos esquecer, claro, que os EUA ainda consideram Assad um inimigo, assim como o Hezbollah, considerado terrorista pelos americanos, apesar de ser inimigo do ISIS. Tanto o Hezbollah quanto o regime de Assad são aliados do Irã que acabou assinar um acordo na área nuclear com todas as potências mundiais, incluindo os EUA.

Hoje, o Hezbollah e o regime de Assad, inimigos dos EUA, travam batalha contra a Frente Nusrah, que é a Al Qaeda, na fronteira da Síria com o Líbano. Esta Al Qaeda da Síria recebe apoio da Turquia, Arábia Saudita e Qatar, que são aliados dos EUA. Não podemos esquecer que a Al Qaeda, e não o ISIS ou o Hezbollah, fizeram o 11 de Setembro.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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