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Como as vilas explicam o Oriente Médio

gustavochacra

09 de abril de 2014 | 17h45

Para entender o Oriente Médio, é necessário entender a noção de vila, império e Estado. Até a Grande Guerra (1914-18), os habitantes do mundo árabe viviam em vilas ou cidades pertencentes ao Império Otomano. Não havia fronteiras. As vilas comercializavam entre si e com uma grande cidade ou porto. Nestas vilas, poderia haver uma religião predominante ou não. As cidades eram multi-religiosas.

A França e Grã Bretanha, ao assumirem os mandatos destas terras, desenharam fronteiras que culminariam em Estados nacionais. No caso do Iraque, os britânicos juntaram três Províncias. A Jordânia foi um presente para os Hashemitas. O Líbano teve sua geografia formada para favorecer os cristãos. A França tentou fazer o mesmo no que hoje é a Síria, com um país majoritariamente sunita ao redor de Aleppo, outro ao redor de Damasco, um druzo no sul e um alauíta no Mediterrâneo. No fim, ficou uma coisa só. A Palestina histórica é uma história mais complexa, que resultou hoje em Israel e nos territórios palestinos.

De todos estes, Israel foi o primeiro a ter sentimento de nação. Isso se deveu em grande parte ao movimento sionista, que por si só já queria criar um Estado para os judeus. Muitos vieram da Europa e entendiam melhor o conceito de Estado-Nação. Os demais não pensavam necessariamente em país, mas em suas vilas e terras. Meus antepassados, por exemplo, eram acima de tudo da vila de Rachaya. Em segundo lugar, da região de Zahle (cidade maior). Em terceiro, do Vale do Beqa (hoje Líbano). Em quarto, da Síria. Além, claro, da serem cristãos e estarem sujeitos aos Millets cristãos.

A vida deles se dava nas relações com outras vilas próximas, como Hasbaya e Zahle, ou com cidades grandes, como Damasco e Beirute. O sentimento de nação não existia. Foi algo construído pela influência e dominação europeia.

Portanto quando dizem “nunca existiu” uma Palestina, nunca existiu mesmo. Mas Nablus, Ramallah, Jericó, Gaza, Belém, além de outras cidades, que hoje são parte de Israel, como Haifa e Nazaré, eram habitadas por pessoas que se identificavam, por exemplo, como “nablousi” (habitante de Nablus). Não era muito diferente de um damasceno para Damasco. Mesmo hoje, algumas pessoas carregam os nomes de suas vilas.

Mas o sentimento de nação, assim como em todo o mundo pós era dos Impérios, cresceu também para quem era de Nablus ou Ramallah ao longo do século 20. Assim como os habitantes do Monte Líbano, do vale do Beqa e do Monte Líbano passaram a associar a identidade deles ao “Líbano”, com símbolos como o cedro, a culinária árabe, as montanhas nevadas, as terras férteis, uma população cosmopolita, o mesmo ocorreu com os palestinos.

 Nos dias de hoje, todas as nações do mundo concordam que deva existir uma Palestina. E isso inclui Israel. Mas é lamentável o fracasso.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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