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Como vivem os cristãos em meio aos muçulmanos no Oriente Médio?

gustavochacra

15 Junho 2016 | 15h49

Tenho visto críticas informando que, nos países de maioria islâmica, não haveria igrejas e todos os cristãos são mortos e perseguidos. Quem diz isso muitas vezes acredita no que fala. Mas esta informação está errada e é importante corrigi-la porque alimenta um sentimento contra os muçulmanos, além de indicar as receitas erradas para lidar com o problema.

A Síria, uma nação de maioria islâmica (90%), possui três patriarcados cristãos – o grego-ortodoxo antioquino, o melquita (grego-católico) e o assírio. Há ainda, na Síria, vilas cristãs como Saydnaya e Maaloula onde se fala aramaico. Um dos bairros mais conhecidos de Damasco é Bab Touma, ou a região do portão de São Tomás, com dezenas de igrejas. Grupos rebeldes, como o ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh), matam cristãos. Mas o regime de Bashar al Assad é visto como protetor dos cristãos, embora cometa crimes contra a humanidade contra outras religiões.

O Líbano também tem maioria da população muçulmana (60%). Ainda assim, talvez Beirute seja uma das cidades com maior número de igrejas per capitas do planeta, rivalizando com Salvador. Tem igrejas maronitas, ortodoxas, melquitas, assírias, siríacas, armênias, católicas, coptas, caldéia. Já pensou? Tem ainda uma vale sagrado no Líbano (Qadisha) com dezenas de mosteiros em montanhas nevadas em meio aos cedros. Por consenso, metade do Parlamento, o presidente, o chefe das Forças Armadas e metade do ministério do Líbano precisa ser cristão. Curiosamente, o Líbano tem fim de semana no sábado e domingo (mas não na sexta, que é o dia sagrado dos muçulmanos) e celebra o Natal.

Aliás, na Síria e na Palestina, a maior parte da população celebra o Natal, com apoio do governo. Assad faz árvore de Natal e, embora seja de origem muçulmana alauita, vai à missa (basta ver as fotos no Instagram pessoal dele e isso realmente é uma estratégia de relações públicas).

O Egito também é majoritariamente muçulmano (90%). Mas possui uma série de igrejas e dois patriarcados – copta e o copta-católico. Sim, há perseguição a cristãos, especialmente nos últimos anos.

O Iraque, majoritariamente muçulmano, tem cerca de 2% de cristãos apenas. Nos tempos de Saddam Hussein, os cristãos eram protegidos pelo regime iraquiano. O número 2 do ditador era o cristão Tariq Aziz. O cenário começou a se deteriorar depois da invasão dos EUA, quando o país se tornou o caos. Centenas de milhares de iraquianos tiveram de buscar refúgio na Síria, onde o regime de Assad concedeu saúde e educação gratuita a todos. Isso mesmo, os cristãos iraquianos foram refugiados na Síria, enquanto alguns países do Ocidente hoje fecham as portas para os sírios porque muitos são muçulmanos.

A Palestina, reconhecida como Estado pela ONU embora ainda não seja formalmente um Estado por não ter um acordo de paz com Israel (por favor, este não é o tema do post), tem uma minoria cristã. A prefeita de Ramallah e a de Belém são mulheres e cristãs. A filha e a mulher de Yasser Arafat, maior líder palestino, são cristãs. Um de seus braços direitos era a cristã Hanah Ashrawi. O maior intelectual que os palestinos já tiveram foi o cristão Edward Said. Os patriarcados cristãos na Terra Santa se identificam com os palestinos. Para completar, até um dos maiores terroristas palestinos, George Habash, era cristão. Sim, há uma redução na população cristã motivada tanto pelo conflito israelo-palestino, como pela crise econômica e, especialmente em Gaza, perseguição religiosa.

Em Israel, muitos cristãos vivem em vilas árabes junto com muçulmanos e a convivência entre eles é harmoniosa. Eles também compartilham de uma identidade “árabe-israelense” que os aproxima em uma nação de maioria judaica. Muitos também vivem bem entre os judeus, especialmente em cidades como Haifa.

A Turquia, quase que integralmente muçulmana, sempre foi sede do Patriarcado Ecumênico da Igreja Cristã-Ortodoxa. Houve sim o genocídio contra os armênios e grego-ortodoxos, mas isso teve uma conotação mais étnica do que religiosa. Afinal, os curdos são muçulmanos sunitas e perseguidos até hoje. O Irã, também de maioria muçulmana, tem uma proeminente população cristã e muitas igrejas, embora estes tenham de se submeter a um regime islâmico xiita. Na Jordânia e na Tunísia, os cristãos vivem sem problemas.

Isso não significa que não se deva criticar o tratamento de cristãos em países de maioria islâmica. O cenário mais grave é na Arábia Saudita, onde são uma fração abaixo de 1% da população. No Paquistão, que já teve um presidente da Suprema Corte cristão, os seguidores do cristianismo também são perseguidos e alvos de atentados. Mesmo nos países citados acima, o cenário para os cristãos se deteriorou nas últimas décadas e descrevi os problemas. O pior mesmo, claro, são áreas controladas pelo ISIS na Síria e no Iraque, onde cristãos são mortos por serem cristãos.

Portanto as críticas devem ser ao que existe – perseguição a minorias cristãs em alguns países de maioria islâmica que se agravou nas últimas décadas. Em algumas nações, por parte de Estados nacionais (Arábia Saudita). Em outros, por parte de grupos terroristas (Síria e Iraque). Não ao que não existe – “é proibido construir Igrejas, não há cristãos nestes países” e outras desinformações.

Importante frisar também que os cristãos do mundo árabe, além da Turquia e do Irã (que não são árabes), seguem em sua maioria absoluta a Igreja Ortodoxa ou Igrejas Orientais. Algumas destas igrejas do oriente, como a maronita e a melquita, respeitam a autoridade papal. Mas católicos-romanos são raros. Protestantes e evangélicos são quase inexistentes.

Noto que falo especificamente dos muçulmanos no Oriente Médio e Norte da África, além do Paquistão. Sendo muito honesto, não me sinto qualificado para falar de como os cristãos vivem em nações de maioria islâmica na Indonésia ou em partes da África subsaariana. E falei mais do Líbano e Síria porque são nações onde estive múltiplas vezes, enquanto os demais visitei no máximo 4 vezes no caso do Egito, Turquia, Palestina e Jordânia. Também visitei, na região, o Marrocos, Yemen, Omã e Emirados Árabes, além do Curdistão turco. Nunca tive a oportunidade de ir ao Irã (quero ir em breve e recomendo o livro Os Iranianos, do Samy Adghirni), Iraque e para a Arábia Saudita. Tenho também origem cristã grego-ortodoxa e cristã melquita (grego-católica) pelo meu lado paterno, que é libanês.

Esta minha origem e dezenas de reportagens que fiz sobre cristãos no mundo árabe, incluindo entrevistas com autoridades cristãs locais e seguidores do cristianismo no Líbano e na Síria me ajudaram a ter este quadro.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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