Comunidades judaicas de Damasco e Beirute estão perto da extinção
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Comunidades judaicas de Damasco e Beirute estão perto da extinção

gustavochacra

16 de novembro de 2008 | 06h03

As comunidades judaicas da Síria e do Líbano estão próximas da extinção. Dos milhares de judeus que habitavam estes países, apenas algumas dezenas ainda vivem em Damasco e Beirute. Os poucos que permaneceram não gostam de aparecer e raramente concordam em dar entrevistas. Encontrá-los é uma tarefa árdua.

Nas ruas da cidade antiga de Damasco, todos sabem indicar onde fica o bairro judaico. “Passando o arco romano, indo em direção a Bab Sharqi pela rua Medhat Pasha, do lado direito”.

Sinagoga de Beirute

Sem os cafés e restaurantes da área cristã de Bab Touma ou os bazares muçulmanos do suq (mercado) Al Hamidiyah, o bairro judaico, conhecido como Al Amin, parece uma cidade fantasma. Muitas casas cujos donos eram judeus estão completamente abandonadas, com pichações e vidros quebrados. Outras são trancadas com cadeados. Algumas foram entregues a refugiados palestinos que pintam bandeiras da Palestina nas entradas. Há cartazes do líder sírio Bashar Al Assad colados em algumas delas.

As poucas pessoas que circulam pelas vielas parecem ser acostumadas a responder para turistas e jornalistas se ainda existem judeus vivendo ali. Alguns viram a cara. Outros dizem não ter mais nenhum. Dois jovens em ocasiões diferentes disseram haver três ou quatro famílias que não gostam de aparecer.

Um judeu conhecido de Damasco é George Dabdoub. Ele tem uma loja de antiguidades e tapetes na entrada do palácio de Azem, que é uma das principais atrações de Damasco e fica no lado muçulmano. Mas ele não estava quando procurado pelo Estado.

Calcula-se que hoje vivam no máximo cem judeus na Síria, quase todos em Damasco, em uma vila próxima ou em Aleppo. Na virada do século 19 para o 20, estima-se que até 100 mil judeus residiam no que hoje é a Síria. Pouco antes da fundação do Estado de Israel, 30 mil ainda viviam no país. Mas a maioria partiu ainda em 1948. Há divergências sobre os motivos que os levaram a sair da Síria. Alguns historiadores afirmam que eles foram expulsos e temiam por sua segurança. Outros dizem que os próprios israelenses colocavam bombas em áreas judaicas para tentar forçar os judeus sírios a imigrarem para Israel.

Nos anos 1970, o número de judeus havia se reduzido para 4.500. Nas décadas anteriores, eles tinham em suas carteiras a inscrição “mossawi”, para designar que eram judeus, além de serem monitorados pelas autoridades sírias e impedidos de deixar o país. Com a chegada de Hafez Al Assad ao poder em 1971, a situação dos judeus sírios melhorou um pouco, mas eles ainda estavam longe de ter os mesmo direitos que cristãos, muçulmanos e drusos e continuavam proibidos de imigrar. No início dos anos 1990, o então líder sírio autorizou que os judeus imigrassem. Ele imaginava que a maioria optaria por permanecer. Errou. Quase todos foram embora, especialmente para os Estados Unidos, onde hoje formam uma comunidade no Brooklyn.

Os poucos judeus residentes em Damasco ainda se reúnem na sinagoga em datas religiosas, como o Yom Kippur. Diferente do Líbano, onde is judeus praticamente não se encontram. Segundo estudo do pesquisador Roni Chatah, da Universidade Americana de Beirute, existem no máximo cem judeus ainda vivendo no Líbano. Assim como em Damasco, eles não gostam de aparecer e muitas vezes omitem a religião. Chatah tentou colocar o Estado em contato com uma menina de 26 anos que circula pelas ruas da capital libanesa com uma estrela de David no pescoço, mas ela não aceitou dar entrevista. Uma idosa, que ainda reside no que no passado foi a área judaica de Beirute, cobra US$ 20 por entrevista (a reportagem se recusou a pagar).

A sinagoga Maghen Abraham, considerada a principal de Beirute, foi destruída, ironicamente, por uma bomba de Israel, durante a ocupação do Líbano, em 1982. Os israelenses alvejavam militantes do grupo xiita Amal que haviam tomado o local. Até hoje, a sinagoga está destruída, com mato crescendo dentro e completamente abandonada no centro da capital libanesa. O repórter do Estado visitou o local no dia do Hosh Hashana (ano novo judaico). Não havia ninguém por perto. Muitos libaneses ignoram a existência da sinagoga. O governo libanês, que reconstruiu grande parte dos prédios de Beirute destruídos na guerra civil (1975-90), não restaurou a sinagoga porque não pode tocar em prédios religiosos. Mesquitas e igrejas foram reerguidas com dinheiro das comunidades muçulmanas e cristãs.

Há poucos meses, Isaac Arazi, em entrevista para a “Bloomberg”, disse estar tentando conseguir fundos com judeus da diáspora para reconstruir a sinagoga de Beirute – ele não aceitou dar entrevista para o Estado e tampouco para outros órgão de imprensa. Diz que já falou tudo o que tinha para dizer. Ele precisa cerca de US$ 1 milhão e reportagens publicadas no Líbano indicam que a reconstrução deve recomeçar em um ano. O jornal libanês publicado em inglês “Daily Star” publicou editorial especulando que o Hezbollah poderia reconstruir a sinagoga. Desta forma, o grupo faria uma espécie de “propaganda” para mostrar que não tem problemas com judeus, apenas com os israelenses. A organização não comenta o assunto.

A história dos judeus libaneses é um pouco diferente da dos vizinhos árabes. A população judaica cresceu, em vez de diminuir, após a criação de Israel em 1948. De 7.000, subiu para 17 mil, de acordo com Chatah, da AUB. O motivo, segundo ele, que prepara um livro sobre o assunto, é que os judeus sírios preferiam ir viver no ambiente francófono libanês, com uma grande população cristã, com quem eram integrados, do que em Israel, onde eles não se sentiam próximos dos judeus asquenazi (europeus). No fim dos anos 1950, eram 22 mil judeus em Beirute.

Mas, com a chegada da OLP (Organização Para a Libertação da Palestina) nos anos 1960, eles começaram a se sentir perseguidos e imigrar. Em 1970, eram apenas mil. Em 1975, quando eclodiu a guerra civil, diminuiu para 500. O restante partiu após a ocupação de Israel, incluindo o rabino. Ficaram apenas os que não tinham condições financeiras de imigrar ou os mais velhos. Ainda assim, há 5 mil judeus com direito a voto no Líbano.

O projeto “Jews From Lebanon” (Judeus do Líbano) foi lançado pelo jovem libanês-americano radicado no Canadá, Aaron Micael Beydoun, que é muçulmano, e tenta montar uma espécie de arquivo na internet sobre o passado dos judeus do Líbano.

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