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Conforme previsto, Morsy começa a virar “Chávez” islâmico

gustavochacra

05 Dezembro 2012 | 23h57

O Egito não corre o risco de voltar a ser uma ditadura como nos tempos de Hosni Mubarak. O perigo, hoje, é o governo da Irmandade Muçulmana, liderado pelo presidente Mohammad Morsi, aderir a uma espécie de chavismo islâmico, no qual tentará impor as suas ideias ao restante da população por meio das urnas. Escrevi isso no dia 23 de novembro. Hoje parece que a previsão se consolida.

O plebiscito sobre a Constituição pode até parecer democrático. Afinal, a população que irá votar para decidir se aceita ou não a proposta de uma assembleia constituinte controlada pela Irmandade e pelos ainda mais radicais salafistas, sem a participação de figuras liberais e também da minoria religiosa cristã copta, que corresponde a cerca de 10% da população.

Mas o texto é um retrocesso na questão das mulheres, dos cristãos e mesmo de liberdades civis quando comparada aos tempos de Mubarak. Seria uma legislação inaceitável em qualquer país do Ocidente. A base para as leis será a Sharia, adotada apenas em regimes radicais do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita, mas não em nações árabes mais modernas como o Líbano e a Tunísia.

Teoricamente, podem afirmar que, se população não quiser, simplesmente votará contra. O problema, porém, é que a Irmandade Muçulmana adiantou o máximo possível a votação e possui uma máquina eleitoral para o dia da votação comparável à do Partido Democrata nas recentes eleições presidenciais dos EUA.

O grupo do presidente Morsi tem uma logística avançada para conseguir levar a sua base para votar. Também implementou uma sofisticada máquina de propaganda. Os adversários da oposição, por sua vez, ainda não conseguiram se organizar e são desunidos.

Desta forma, parece provável que Morsi conseguirá aprovar a Constituição que conduz o Egito para um viés mais conservador. Uma das últimas alternativas dos opositores seria, com os protestos, convencer o novo governo a postergar a votação com o temor de deterioração da situação no país e aumento da violência.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios