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“Corredor Humanitário” na Síria é impossível

gustavochacra

25 de novembro de 2011 | 12h21

no twitter @gugachacra

A idéia de organizar um corredor humanitário para a Síria não faz sentido algum. Primeiro, precisamos levar em conta que nenhuma cidade síria até agora está nas mãos dos opositores. Mesmo Homs é controlada pelo governo, assim como as vilas próximas à fronteira com a Turquia. Damasco, Aleppo, Latakia e Tartus sequer têm protestos contra o regime.

Ainda assim, fala-se que o corredor poderia atingir Homs. Mas como? Esta cidade fica próxima da fronteira com o Líbano. Logo, diriam, o corredor poderia cruzar através do território libanês. O problema é que justamente esta divisa está próxima a áreas controladas pelo Hezbollah, aliado de Damasco. Além disso, o grupo xiita, que é milícia mais poderosa do mundo, capaz de fazer frente a Israel, iria dar risada das “tropas humanitárias”. Seria como o Barcelona enfrentar o time de futebol do clube Pinheiros. Impossível a chance de sucesso.

Nos anos 1980, quando a organização ainda estava nos seus primórdios, os marines americanos foram alvo de um dos maiores ataques contra forças americanas no pós-Vietnã. Os israelenses tiveram que deixar o sul do Líbano em 2000 e fracassaram em 2006. Quem seriam estas “tropas humanitárias” para enfrentar o Hezbollah, se nem os israelenses conseguiram?

Uma segunda alternativa seria usar um porto sírio. Mas qual? O porto de Tartus e Latakia são usados como entreposto militar pelos russos e são completamente dominados pelo Exército sírio. As forças humanitárias de Brancaleone iriam tentar desembarcar e fracassariam. Moscou nunca permitiria uma ação destas. Sem a Síria, os navios russos não tem outro lugar para reabastecimento no Mediterrâneo.

Sobra a Turquia. Neste caso, certamente o corredor humanitário atingiria algumas vilas na fronteira, apesar de certamente ocorrerem choques contra as forças de segurança sírias. Mas seria impossível chegar a Homs sem cruzar pelas proximidades de Aleppo, que é o maior bastião pró-Assad da Síria. No caminho, seria preciso cruzar por áreas alauítas. Para completar, como escrevi acima, Homs é controlada pelo governo.

Obs. Obviamente Israel não permitiria que o corredor atravessasse o seu território. Tampouco esta idéia ressonaria bem no  mundo árabe

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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