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Da Casa Branca ao WTC – Contra preconceito, Obama defende centro islâmico próximo ao Ground Zero

gustavochacra

14 de agosto de 2010 | 10h46

“Eu entendo as emoções que este tema provoca. O Ground Zero é um solo sagrado. Mas esta é a América (EUA) e o nosso compromisso com a liberdade religiosa deve ser intocável. Portanto, deixe-me ser claro – como cidadão e como presidente, eu acredito que os muçulmanos tem o mesmo direito de praticar a sua religião como qualquer outro neste país. Isso inclui o direito de construir um lugar para orar e um centro comunitário em uma propriedade privada em Manhattan, de acordo com as leis”

Barack Obama, presidente dos EUA, durante o Iftar do Ramadã, em 13 de Agosto de 2010

Já escrevi sobre isso antes, mas agora Obama entrou na história e decidi comentar mais uma vez.

Em Nova York, os moradores nem pensam se são cristãos, ateus, judeus ou muçulmanos quando se matriculam em uma YMAC (a sigla em inglês para Associação Cristã de Moços) ou na Y92, um outro centro esportivo, cultural e social, administrado por uma entidade judaica. O mais importante é se fica perto de casa, sem ter muita relevância de há uma cruz, um estrela de David ou um crescente islâmico na entrada.

Seguindo esta linha, o muçulmano Feisal Abdul Rauf, nascido no Kuwait e radicado nos EUA há cerca de quatro décadas, decidiu erguer um centro islâmico nos moldes da YMCA voltado para todas as religiões. A proposta prevê piscina, academia, lanchonete e uma sala de oração, que pode ser classificada como mesquita, para centenas de pessoas. O custo é estimado em US$ 100 milhões.

As autoridades de Nova York, incluindo o prefeito Michael Bloomberg, declararam apoio e tudo parecia caminhar para a construção do centro, denominado Park51 (inicialmente seria Córdoba). Até que o assunto foi politizado. O problema está na localização do centro, a dois quarteirões do Ground Zero, onde antes estavam as torres do World Trade Center (WTC).

Por ser islâmico, o centro passou a ser relacionado com os terroristas do 11 de Setembro, que eram integrantes da rede terrorista Al Qaeda, que adota uma interpretação radical do islã. Os ataques ao centro-mesquita vêm especialmente de políticos mais conservadores, como a ex-governadora do Alaska Sarah Palin, o senador John McCain e o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani. Hoje há pesquisas indicando que a maioria da população americana se posiciona contra o centro islâmico. Agora, ônibus em Nova York circularão com uma propaganda se opondo à obra, dizendo equivocadamente que será construído onde estavam as torres – aliás, esta informação equivocada tem sido difundida pelos EUA.

Os opositores começaram a afirmar também que o dinheiro para o centro viria de terroristas – acusação negada pelas autoridades de Nova York e por Rauf , que é formado na tradicional Universidade Columbia, vive em Tribeca (bairro do WTC) há três décadas e circula na alta sociedade de Nova York. A polêmica se acentuou no fim de julho, quando a Anti-Defamation League (Liga Ant-Defamação), uma entidade judaica que luta contra o preconceito, condenou a decisão de se construir um centro islâmico próximo ao local onde estava o WTC.

Segundo a organização, a melhor coisa a se fazer seria construir o centro islâmico em outro local. Para a ADL, as vítimas do 11 de Setembro, como as do Holocausto, estão sujeitas a ódios irracionais que são difíceis de entender para outras pessoas.

A postura da ADL provocou dura reação dos que apóiam o centro. Bloomberg, que é judeu, afirmou que “o que é admirável dos EUA, e particularmente de Nova York, é que recebemos bem a todos e, se tivermos medo de uma coisas dessas, o que isso dirá sobre a gente?”.  O editor da revista Newsweek e apresentador da CNN, Fareed Zacharia, devolveu um prêmio recebido da ADL como forma de protesto. “Então palestinos podem ser anti-semitas?”, escreveu Zacharia na revista, questionando a postura da ADL.

Colunistas como Thomas Friedman, do New York Times, também se posicionaram a favor do centro islâmico. O New York Times, em editorial, engrossou a lista dos defensores da obra.  Segundo ele, é importante defender os muçulmanos moderados. O New York Times engrossou a lista dos defensores do centro – “Não é apenas a coisa certa a se fazer. É a única coisa a ser feita”, disse o jornal em editorial.

IMPORTANTE – Já existem há décadas duas mesquitas a poucos quarteirões do WTC

Uma brasileira-palestina por trás da decisão

Uma filha de mãe brasileira e pai palestino tem servido de conselheira para Michael Bloomberg na polêmica sobre a construção do centro islâmico a dois quarteirões do Ground Zero. Segundo a muçulmana Fátima Shama, tida por muitos como braço direito do prefeito de Nova York, a obra é fundamental para a integração das religiões.

Segundo reportagem do New York Times, publicada ontem, Fátima disse para o prefeito que tem três filhos e queria um lugar na cidade para dividirem sua fé islâmica com os amigos. “Este pode ser lugar”, disse Shama para Bloomberg, se referindo ao centro islâmico.

Aos 37 anos, Fátima já foi secretária da Educação. No ano passado, assumiu o comando de assuntos de imigração desta que é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Fluente em português, espanhol, francês, italiano, árabe e inglês, Fátima conversou com o Estado em outubro. Na época, ela comentou a sua relação com Bloomberg. “Bloomberg sempre pergunta da situação dos palestinos”, disse – o prefeito não tem tanta curiosidade sobre o Brasil.

Além da proximidade de Fátima, também pesou na postura de Bloomberg o preconceito que ele sofreu no passado por ser judeu. Quando era criança, viu seus país serem vítimas de anti-semitismo em Massachusetts. Na visão do prefeito, o preconceito contra os judeus é tão grave como a islamofobia. E os EUA devem sempre defender a liberdade religiosa.

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