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Da Flórida a Meca – A história do extremista cristão que quer queimar 200 cópias do Alcorão

gustavochacra

09 de setembro de 2010 | 05h17


Update – O pastor decidiu cancelar a queima das 200 cópias do Alcorão e aceitou convite para se reunir com líder islâmico da região central da Flórida

Antes de começar o texto, preciso deixar claro que ninguém nos EUA está apoiando a iniciativa de queimar o Alcorão, a não ser os seguidores do pastor da Flórida. Até mesmo oportunistas supostamente conservadores, como o apresentador Glenn Beck, da Fox News, criticaram a iniciativa.

Terry Jones era um pastor completamente desconhecido e irrelevante nos Estados Unidos até dois meses atrás. Apenas 30 pessoas frequentam semanalmente seus sermões em sua igreja em Gainesville, na Flórida. Mesmo na pequena cidade, este líder evangélico é considerado uma figura marginal, sem importância, quase uma piada. Ele era considerado um fracasso nas relações públicas.

A não ser pelo seu longo bigode grisalho, Jones não conseguia chamar a atenção, apesar de tentar com o seu programa “The Braveheart Show”, no YouTube, e com o livro “The Islam is of the Devil”. Porém somente 200 pessoas costumavam assisti-lo. Um número similar comprou o seu livro na internet.

Tudo mudou em 25 de julho deste ano, quando o pastor decidiu, no seu programa do YouTube, lançar uma campanha “internacional” para queimar o Alcorão. “O Islã é do demônio. O 11 de Setembro nunca será esquecido. Foi o dia que Islã nos atacou, o nosso modo de vida, a nossa Constituição. É uma religião demoníaca. Neste 11 de Setembro, teremos um dia internacional para queimar o Alcorão”, afirmou o pastor, que se autodenomina doutor, no vídeo de 1 minuto e 36 segundos.

Inicialmente, poucos prestaram atenção na sua campanha. Nos últimos dias, com a aproximação do 11 de Setembro, as autoridades passaram a levar a sério a campanha deste pastor que lidera uma igreja chamada Dove World Outreach Center.

Aproveitando a sua popularidade, Jones tem dado seguidas entrevistas a redes de TV. Críticos, como o general David Petreaus, comparam o seu radicalismo ao do Taleban. No seu site, ao apresentar os ideais de sua igreja, ele afirma que “os cristãos precisam retornar para a verdade e parar de se esconderem. O Aborto é um  assassinato. A homossexualidade é um pecado. Temos que chamar estas coisas pelo que elas realmente são. Jesus é o único caminho, a verdade e a vida. Qualquer religião que vá contra isso é demônio”.

Repúdio internacional

A decisão de queimar cerca de 200 cópias do Alcorão no dia 11 de Setembro provocou repúdio internacional e elevou os temores de reações violentas de muçulmanos ao redor do mundo. Autoridades americanas e lideranças islâmicas moderadas tentam mostrar que esta manifestação é um caso isolado, não representando o pensamento americano.

Até agora, estas condenações a Jones foram insuficientes para conter os protestos que já começaram na Indonésia e no Paquistão e devem se espalhar por outros países. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã advertiu os EUA para não “profanarem objetos islâmicos” e para “não criarem situações sensíveis envolvendo a opinião pública e os muçulmanos”.

O tom também foi duro nas declarações de um ex-ministro de assuntos religiosos da Síria. “Estamos acostumados a ver as administrações arrogantes dos EUA e da Europa ofendendo o islamismo e a figura do profeta Maomé”, disse Abd al Razzaq Munis para uma rede de TV iraniana. No Afeganistão, manifestantes queimaram bandeiras americanas e um boneco que representaria Terry Jones.

Há cinco anos, depois de um cartunista dinamarquês publicar um cartoon satirizando o profeta Maomé, dezenas de milhares de muçulmanos protestaram violentamente ao redor do mundo e mais de cem pessoas morreram. Queimar o Alcorão seria uma blasfêmia ainda maior para os muçulmanos. “Se a igreja da Flórida levar adiante seus planos de queimar o Alcorão no 11 de Setembro, aquela data infame vai ganhar um irmão gêmeo que será o estopim de uma onda de ira que consumirá partes do mundo”, escreveu em editorial o jornal libanês Daily Star, alertando sobre os riscos da atitude do pastor americano.

Ao publicarem as informações sobre o assunto ontem, a imprensa da região foi cautelosa. Até mesmo a rede de TV Al Manar, do Hezbollah, evitou declarações incendiárias ao colocar logo no primeiro parágrafo de seu texto que autoridades americanas condenaram a atitude do pastor. A Al Jazeera também tomou o mesmo cuidado.

Em declarações no Council on Foreign Relations, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que os planos de “uma pequena igreja da Flórida de queimar cópias do Alcorão no 11 de Setembro é revoltante e infeliz, não representando quem somos como americanos”. O comandante das forças americanas no Afeganistão, general David Petraeus, também condenou o pastor, afirmando que a atitude dele pode colocar em risco as tropas americanas.

O Vaticano criticou Jones ao afirmar que todas as religiões “devem ser respeitadas e protegidas”. A chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, e o presidente do Líbano, Michel Suleiman, que é cristão, também lamentaram a decisão do pastor da Flórida e alertaram para os riscos de violência em reação à atitude dele. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, disse que a ação do pastor pode colocar em risco “iniciativas das Nações Unidas ao redor do mundo para defender a tolerância religiosa”.

Apesar de todas estas iniciativas, a Justiça americana não pode impedir que o pastor siga adiante com seus planos. A Constituição dos EUA garante o direito à liberdade de expressão, ainda que uma religião seja ofendida.

Islamofobia

Grupos muçulmanos dos Estados Unidos pretendem realizar um protesto pacífico diante da igreja do pastor Terry Jones, no dia 11 de Setembro, quando ele promete queimar cerca de 200 cópias do Alcorão. A data, neste ano, coincide com o último dia do Ramadã, mês sagrado para os islâmicos.

“Nós estaremos lá. A idéia é encará-lo de frente e mostrar que existe uma alternativa. Também tentaremos mostrar ao resto do mundo islâmico que este pastor é uma figura marginal, não representando o pensamento americano”, me disse Corey Saylor, porta-voz do Council on American-Islamic Relations (CAIR), considerado o grupo mais representativo da população muçulmana dos EUA.

Segundo ele, muitas vezes a imprensa ocidental mostra líderes marginais do islamismo atacando o judaísmo e o cristianismo como se fossem autoridades religiosas importantes. “Não podemos fazer o mesmo. Estamos trabalhando para que os muçulmanos ao redor do mundo entendam que este é um caso isolado”, disse Saylor, advertindo, porém, que existe uma “bolha islamofóbica” nos EUA.

Citando o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, episódios como o do pastor Jones e a oposição à construção do centro comunitário islâmico a dois quarteirões do Ground Zero “possuem motivações políticas e devem se reduzir depois das eleições (parlamentares) de novembro”. Ele também elogiou as manifestações de Hillary e Petraeus.

Na avaliação do CAIR, o presidente Barack Obama não deveria intervir. “Isso seria usado politicamente contra ele”, disse Saylor. O líder americano é classificado como muçulmano por mais de um quinto da população dos EUA, apesar de ele publicamente se declarar cristão.

Um grupo de líderes religiosos, incluindo autoridades cristãs, judaicas e islâmicas, divulgaram ontem um comunicado lamentando a atitude do pastor do Texas e advertindo para o risco do crescimento da islamofobia nos EUA. A revista Time, que é a de maior circulação no país, publicou uma capa no mês passado questionando se os americanos são islamofóbicos. O New York Times, em editoriais, também já advertiu para os riscos dos sentimentos anti-islã.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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