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Dá para derrotar o ISIS? Lógico! Mas é difícil. Veja esta estratégia em 3 etapas

gustavochacra

15 de novembro de 2015 | 12h10

Dá para derrotar o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, responsável pelos atentados em Paris, Beirute (Líbano), Ancara (Turquia), Bagdá (Iraque) e contra o avião russo no Sinai (Egito)? Dá sim, claro. Vários grupos terroristas foram derrotados, como os Tigres Tâmil, no Sri Lanka, o ETA, na Espanha, o IRA, na Irlanda, e o Grupo Islâmico Armado, na Argélia, entre dezenas de outros. Muitos se enfraqueceram, incluindo a Al Qaeda. Afinal, a Al Qaeda de hoje não é nem sombra do que era no começo da década passada, com o 11 de Setembro, Madrid, Londres e Bali.

E como derrotar o ISIS? Não tem receita, não será simples e não será rápido. Basicamente, temos de dividir em três ofensivas distintas – como combater o ISIS em seu território, como evitar atentados do ISIS e como eliminar a ideologia do ISIS

Como combater o ISIS no seu território?

Sabemos apenas que a atual estratégia de bombardeios aéreos não vem dando certo. O ISIS, apesar de algumas derrotas, ainda mantém controle sólido de partes da Síria e do Iraque, incluindo Mossul, segunda cidade do país. Talvez seja necessário o uso tropas terrestres. Estas não precisam ser necessariamente americanas, embora o apoio logístico dos EUA seja fundamental. O ideal, para derrotar o ISIS na Síria, seria um acordo para estabilizar o conflito entre o regime de Bashar al Assad e outros grupos opositores, incluindo os radicais. As forças de ambos mais os curdos, com o suporte da Rússia, dos EUA, do Irã, da França, da Turquia e de países árabes, realizariam uma ofensiva por terra contra o ISIS.  Mas Assad? Sim, Assad. O regime dele não faz atentados em Paris, o ISIS faz. E, no Iraque, usar o Exército iraquiano, treinado pelos EUA, se reaproximar das tribos sunitas e continuar a aliança com os curdos. Obviamente, falar é fácil. Afinal, nesta coalizão, há muitos inimigos e derrotar o ISIS não é a prioridade de alguns deles. Mas, lembrando da Segunda Guerra, foi necessário se unir aos inimigos soviéticos para derrotar o regime nazista da Alemanha. O ISIS equivale aos nazistas neste momento. Assad, Irã e Rússia são os soviéticos.

Como evitar atentados?

Deve-se observar quem conseguiu bons resultados contra o terrorismo. O exemplo mais óbvio é os EUA. Os americanos, desde o 11 de Setembro, conseguiram evitar mega atentados no país. Já são 14 anos. A maratona de Boston não pode ser equiparada a Paris ou Beirute, por exemplo. Foi uma ação de dois irmãos, agindo como lobos solitários, e que deixou poucas vítimas fatais. De uma certa forma, a vitória parcial contra a Al Qaeda nos EUA (o grupo ainda atua no Yemen e na Síria) indica que a melhor receita para derrotar o terrorismo extremista islâmico é o reforço na segurança, um bom serviço de inteligência e trabalho em conjunto com muçulmanos moderados em suas instituições e mesquitas, os integrando à sociedade. O governo americano faz isso com sucesso.

Como combater a ideologia do ISIS?

O ISIS segue a ideologia wahabbita, que é uma vertente ultra extremista do islamismo sunita. É a mesma do Taleban, da Al Qaeda, do Boko Haram e do Al Shabab. No passado, esta ideologia era praticamente restrita à Arábia Saudita. Mas o regime saudita e seus braços no serviço de inteligência passaram a disseminar o wahabbismo ao redor do mundo por meio de mesquitas e madrassas. A partir deste momento, uma parcela crescente do islamismo sunita começou a se radicalizar. Outras vertentes mais moderadas do islamismo sunita, bem mais laicas, como as existentes na Síria e na Turquia, por exemplo, perderam força. Lembro que o primeiro atentado suicida cometido por um sunita ocorreu no começo dos anos 1990. Mas, neste caso, quem dissemina esta ideologia é visto muitas vezes como um aliado ocidental. Sem combater a ideologia do ISIS, surgirá outro grupo radical no lugar, assim como o próprio ISIS substituiu a Al Qaeda.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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