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Da Polônia à Tunísia – O fim da barreira psicológica para a democracia no mundo árabe

gustavochacra

15 de janeiro de 2011 | 15h20

As ditaduras da América do Sul e do Leste Europeu caíram ao logo dos anos 1980. Verdade, sobrou Cuba. Mas os dois continentes se tornaram democráticos, bem distantes dos tempos em que eram governados por generais ou líderes comunistas. No mundo árabe, não aconteceu a mesma coisa.

Quatro fatores costumam ser citados para explicar a ausência de democracia. O colonialismo, o envolvimento do Ocidente nestes regimes, o petróleo e o islamismo. Dá para contra-argumentar todos estes e dizer que cada uma das nações com regimes autoritários na região não possui democracia por diferentes fatores.

O colonialismo indica que estes Estados ficaram independentes apenas em meados do século 20, bem depois do Leste Europeu e da América Latina. Porém isso não se justifica, já que a maior parte destes países era mais liberal pouco depois de sua independência. Além disso, a África possui nações que ficaram independentes na mesma época e hoje são democráticas.

O apoio ocidental tampouco serve de explicação. A Líbia e a Síria não desfrutam deste amparo e seus líderes se mantêm no poder. O inverso tampouco se aplica em todos os casos. Isto é, ter o Ocidente como inimigo, apesar de servir como justificativa. A Síria mantém o Estado de exceção com o argumento de que Israel ocupa seu território – as colinas do Golã. Os iranianos, conforme eu disse no post anterior, também usam o discurso anti-EUA para combater as manifestações – esta retórica funciona ainda em Cuba e na Venezuela. Mas, mais uma vez, isso explicaria as ditaduras anti-Ocidente, não outras como o Egito e a Tunísia até anteontem.

O petróleo provoca um fenômeno chamado de rentier state system, onde o Estado tem renda vindo de um produto, não dos impostos. Assim, os governantes não devem muita satisfação à população, já que  provê serviços sem necessitar taxar seus habitantes. Isso explicaria as monarquias do Golfo Pérsico. Mas apenas em parte. Os locais na verdade gostam das monarquias porque em muitos casos eles são minoria diante dos expatriados e querem proteção. Aalguns dos países que mais tem se aberto são justamente estes, como o Kuwait, Omã e Qatar. E a Noruega tem petróleo e é um dos países mais democráticos do mundo

Pulamos para o islamismo. De novo, não funciona. Duas das maiores nações islâmicas são democráticas – a Turquia e a Indonésia. Tiveram ditaduras no passado, mas já a superaram. Não há lógica em dizer que a religião, portanto, exerça influência. Mesmo porque há diversas ditaduras no mundo, como em Cuba e na China, onde não existe o caráter religioso.

Talvez faltasse a crença da população de que um regime ditatorial pudesse ser derrubado. Os acontecimentos na Tunísia acabaram com esta barreira psicológica, por mais que ainda não saibamos se haverá democracia ou uma nova ditadura. O certo é que pela primeira vez um ditador caiu em revolta popular no mundo árabe. Não duvidem que fenômenos similares ocorram acima de tudo no Egito e na Jordânia no médio prazo. Os sírios ainda têm o argumento anti-Israel e, acima de tudo, 2 milhões de iraquianos que contam relatos deprimentes do experimento democrático no Estado vizinho.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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