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Da Telesp, ao Facebook ao Google Plus – 2001, antes das redes sociais, era melhor do que 2011

gustavochacra

06 de julho de 2011 | 10h13

no twitter @gugachacra

Fomos das cartas para o telefone. Dos telefones para os emails. E dos emails para as redes sociais. Até os anos 1970, era quase impossível falar por telefone do exterior com o Brasil. Eram tempos em que as pessoas gastavam mais de uma hora na fila do orelhão nas férias no litoral paulista para conversar com quem ficou em São Paulo. Todos ouviam nossa conversa. Apenas desligávamos quando a ficha da Telesp caia. Durava três minutos, se não fosse recarregada. Se perdêssemos o jogo no rádio ou na TV, precisávamos perguntar o resultado para alguém ou ligar no 200-1982.

No início dos anos 1990, expatriados e imigrantes apenas trocavam cartas com seus amigos. Existia a distância, a saudade, a imaginação de estar longe. Não sabia quase nenhuma novidade. No fim daquela década e no começo do novo século, passamos a usar mais o email. Mas, nas viagens ao exterior e mesmo dentro do Brasil, buscávamos um internet café. Esta, para mim, foi a melhor época da humanidade.

Nós podíamos saber das notícias diariamente, acessando os sites de informação por alguns minutos, respondendo aos emails mais urgentes e, depois de meia-hora e cerca de cinco dólares, retornando à nossa viagem. Desligávamos do mundo e nos concentrávamos no lugar onde estávamos. Nesta época, emails eram cartas na internet, e não mensagens de texto. Escrevíamos, não estávamos “texting” alguém.

Aos poucos, as redes sociais começaram a entrar na nossa vida. No Brasil, através do Orkut. Nos EUA, com o MySpace e o Friendster. Nesta época, eu ainda vivia em São Paulo. Voltando de uma viagem a Jerusalém, parei em Paris por uns dias e virei membro do Orkut. Era 2004. Em poucos meses, quase todos meus amigos acessavam o site. No ano seguinte, na Universidade Columbia, nenhum dos meus amigos americanos sabia o que era Orkut. Mas uma amiga libanesa me falou da novidade do Facebook. Naquele ano, ainda era preciso ter endereço de email terminado em ponto edu. Os brasileiros integrantes do site estudavam no exterior.

O Facebook utilizou uma tática distinta do Orkut. Começou de cima para baixo, através dos alunos de Harvard. Abriu para Columbia, Stanford e outras das principais universidades americanas. Quem estava fora queria entrar, integrar o clube. Mas precisava ser aceito. Posteriormente, liberaram para universitários e escolas, antes de abrirem para todos.

O ideal seria termos 150 amigos, segundo me disse Blake Irving, diretor de produtos da Yahoo. Com este número, não nos importamos de dividir onde estamos e alguns comentários mais divertidos. O auge do Facebook foi em 2008. Neste ano, se intensificou a migração para os celulares como iPhone, Blackberry e outros. Era o fim do tempo áureo na internet ou da humanidade.

Em 2002, ficávamos conectados apenas quando estávamos diante do computador. Não interrompíamos nosso jantar e tampouco verificávamos uma atualização do twitter depois da natação. Não perdíamos tempo para ver se recebemos uma mensagem de whatsapp ou de bbm no trânsito. Podíamos esperar alguns minutos. Sem desespero. Chegávamos para buscar a namorada e avisávamos o porteiro para interfonar. Mais elegante. O homem esperava pela mulher. Ou vice-versa. Mas nada da mensagem de texto “cheguei, pode descer”.

Agora estamos conectados 24 horas por dia, com todas mil pessoas adicionadas no Facebook e outras milhões no Twitter. Checamos o email o tempo todo. A cada dois minutos damos um refresh no iPhone ou nos seus concorrentes. Quando o avião pousa, 90% dos passageiros, incluindo eu, já ligam o celular para ver se há alguma novidade. E, para completar, o Google lançou o Google+. Não sei se desta vez terão sucesso, mas eles usam a mesma estratégia do Facebook, de começar de cima para baixo. Para atingir este objetivo, selecionaram algumas pessoas. E muitos brasileiros e estrangeiros estão desesperados para entrar.

Lembrando de épocas mais divertidas da minha adolescência, decidi voltar no tempo e passar um trote. Só que, em vez de um amigo, passei em mil no meu Facebook. Escrevi no meu mural “Leaving Facebook and Moving to Google Plus”. Mais de 20 pessoas me escreveram pedindo convites. Mas eu não tenho. Não fui convidado e nem quero entrar. Na verdade, o Twitter é uma ótima ferramenta profissional para jornalistas e algumas outras atividades, mas certamente inútil para engenheiros e médicos. O Facebook me ajuda a manter contato com amigos estrangeiros e os antigos do Brasil. Mas ler o newsfeed é cada vez mais irrelevante. Virou uma espécie de email. O Google Plus seria apenas uma terceira alternativa, com suas vantagens e desvantagens.

No fundo, não sinto falta dos anos do orelhão da Telesp. Sinto falta é da época do internet café e do celular sem email. Quando me mudei para Nova York, em 2005, eu ainda me desligava do Brasil. Sentia estar outro país. Esta sensação, acabou. Não apenas para mim, mas também para outros estrangeiros com quem converso na cidade. Estamos em todos os lugares ao mesmo tempo. Sinto falta de sentir falta. Sinto falta de, em uma discussão de almoço, não ter o Google como juiz em alguma disputa minha com um amigo sobre quem era titular da seleção em 1982, o Paulo Isidoro ou o Cerezo (dependia do jogo). De qualquer forma, talvez daqui a dez anos, em 2021, sentirei falta dos tempos do Facebook, já que teremos alguma coisa bem mais avançada.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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