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Da Telesp ao Iphone – Nosso presente é mais moderno do que futuro dos anos 1980

gustavochacra

11 de janeiro de 2010 | 21h52

O futuro de hoje se tornou mais avançado do que o futuro imaginado no passado recente, de menos de 30 anos atrás, em filmes como De Volta para o Futuro ou brinquedos do Epcot Center em Orlando. Não existem carros e skates voadores circulando pelas ruas ou ares de Nova York e São Paulo, mas a modernidade de hoje superou as previsões do passado. Mesmo George Jetson, do desenho animado de Hanna-Barbera situado em um longínquo 2062, não tinha um Blackberry, um Iphone ou o Nexus One, lançado nesta semana com o objetivo de ser o mais moderno celular já fabricado. Qualquer pessoa que o possuir, ou um de seus concorrentes, terá mais acesso a informações do que agentes da CIA (serviço secreto americano) ou o presidente dos Estados Ronald Reagan nos anos 1980. Mesmo Bill Gates, homem mais rico do mundo e um dos pioneiros da informatica, na virada do século, não portava um aparelho tão moderno como os celulares atuais.

Do Atari X-box
Quando Michael J. Fox saiu de 1985 para viajar aos dias atuais – na verdade, para 2015 –, em filme lançado há exatos vinte anos no Brasil, ele usava um relógio com calculadora, que era uma das sensações daqueles anos de Guerra Fria. Hoje passaria completamente despercebido. No Brasil, 25 anos atrás, pais da classe média compravam para seus filhos um Atari ou um Odissey, que podem parecer vídeo-games da idade da pedra para um adolescente com um X-box. No filme, os roteiristas previram este avanço em De Volta para o Futuro. Em uma cena em um bar do futuro que teria como tema os anos 1980, Marty McFly – o personagem de Fox – tenta exibir seus dotes em um fliperama, mas acaba se tornando motivo de gozação para dois meninos futuristas acostumados a games de realidade virtual, no qual não precisam usar as mãos. Porém, ao contrário do que imaginaram os roteiristas, vídeo-games como o Wii, um dos mais modernos dos dias de hoje, utilizam não apenas as mãos, mas o corpo inteiro. O conceito de modernidade mudou.

Das Fichas da Telesp ao Iphone
Em 1985, quando é ambientado o filme gravado no fim da mesma década, as pessoas ainda utilizavam os telefones fixos. Os pais atendiam as ligações dos namorados das filhas. Os filhos precisavam telefonar dos orelhões para pedir para os pais o buscarem no clube ou no shopping, com as extintas fichas da Telesp. Brasileiros expatriados se comunicavam com as família por cartas ou através do telefonema semanal com a voz ao fundo dizendo para desligar “logo porque ficará caro”. Vivendo neste ambiente, Robert Zemeckis e Steven Spielberg, responsáveis por De Volta para o Futuro, não imaginaram que os telefones se tornassem artigos individuais, com um celular para cada pessoa da família. Era uma época em que se usava a extensão, com o irmão podendo escutar a conversa da irmã. Em países como o Brasil, uma linha telefônica custava milhares (ou milhões?) de cruzeiros ou cruzados na bolsa do telefone.

Por este motivo, na casa dos McFly no futuro, a filha atende o telefone e diz que é para o pai. Isto é, eles ainda dividem o aparelho da casa, sem a existência do celular. O interlocutor do de McFly aparece em um TV, de tela plana, com seu nome e dados familiares abaixo, similar ao Skype. Em outra ligação, seu chefe anuncia sua demissão por fax e vários papéis são espalhados pela casa em receptores distintos, como as extensões dos telefones. Não havia, nos anos 1980, a noção do e-mail, a não ser em meios científicos mais avançados. Celulares, como o Nexus One, com capacidade para tirar fotos de alta resolução e digitar e-mails através da voz, tampouco passavam pela cabeça das pessoas que imaginavam o futuro nos anos 1980.

Hotmail e Orkut são retrô
No futuro real, em que vivemos, os celulares estão espalhados por todas as classes sociais. Nos EUA, são raros os jovens com menos 30 anos que adquirem telefones fixos. Recentemente, a Newsweek questionou em reportagem sobre a necessidade de ter um aparelho em casa. Alguns dormitórios de universidades aboliram as linhas telefônicas fixas, já que ninguém as usava. Conforme escreveu o cronista Antonio Prata no caderno Metrópole do Estado, citando o seu pai e também escritor Mario Prata, “o telefone fixo foi uma invenção que não deu certo”. Os mais novos, que vivem com os pais, ainda possuem linha fixa da família em casa. Mas trocam com os amigos apenas os números de celulares. Os pais perderam o controle sobre quem conversa com os filhos. Todos enviam mensagens de texto ou até mesmo falam enquanto estão em seus quartos, durante a madrugada. Estudo do JP Morgan realizado com adolescentes demonstrou ainda que muitos sequer utilizam o telefone para se comunicar. O contato com os amigos pode ser feito diretamente através do Playstation-3. As mudanças são tão velozes nas comunicações que em poucos anos até novidades como o hotmail, Yahoo! e o Orkut se tornam retro diante do Gmail, Google e do Facebook.

Comparando o Woodstock , nos anos 1960, com o concerto Lollapalooza em Chicago, no ano passado, a colunista Gail Collins, do New York Times, que esteve em ambos, afirmou que a atual geração não conseguirá se desconectar completamente do mundo externo, como na década de 1960. “Para qualquer ponto que eu olhava, 50% das pessoas estavam lendo ou digitando textos”, escreveu sobre o evento em Chicago. Esta imagem não foi prevista por nenhum futurista das décadas de 1970 e 80.

Do papel repelente de poeira ao Kindle
No filme, também se fala em um papel repelente de poeira. Isto é, as pessoas não teriam mais que se preocupar com o acúmulo de pó nos seus livros. O problema é que a ciência não está preocupada em criar papéis que não acumulem pó. E sim em abandonar o papel totalmente. Pela primeira vez na história, a Amazon anunciou ter vendido mais livros virtuais do que impressos. Estudantes das principais universidades americanas, como a Columbia e a NYU, de Nova York, desfilam pelos campus em Manhattan com seus Kindles e Nooks, repletos de livros digitais que usarão nos seus cursos. A sala do Xerox perdeu importância nos campi de Princeton, Harvard e Stanford. Este texto será lido por muitos leitores em um meio que não é o papel.

Revista Manchete na Varig de Paris
O cientista descrito como “Doc” em De Volta para o Futuro carrega um exemplar do dia seguinte do USA Today. Em nenhum momento existe a preocupação em mostrar algum órgão de informação on-line, com atualização automática. Eles não previam este modelo de imprensa nos anos 1980. Não se falava em internet. O New York Times costumava chegar com alguns dias de atraso ao Brasil e, mesmo assim, somente a poucas bancas da avenida Paulista e por um preço mais de cinco vezes maior do que na Madison Avenue. Brasileiros no exterior visitavam as filiais da Varig na Champs Elisee, em Paris, e na Quinta Avenida, em Nova York, para conseguir um exemplar da Veja ou da Manchete de duas semanas antes. No intercâmbio, adolescentes brasileiros sofriam para saber como andavam o Palmeiras e o Corinthians no Campeonato Paulista. Agora, jornais como o Estado e a Folha podem ser lidos até mesmo na sua forma impressa, com direito a anúncios, na internet, de Roma a Damasco, antes mesmo de estarem na porta das casas em Higienópolis. O filho de McFly no futuro assiste a uma TV com seis canais ao mesmo tempo e começava a surgir a noção do cabo nos EUA. No Brasil, ainda era uma ficção. Hoje, jovens nascidos depois dos anos 1980 sequer chamam a TV Globo de canal 5 em São Paulo, porque o número da emissora pode variar de acordo com a operadora contratada.

Japão dominaria o mundo
O chefe de McFly é um japonês. Na verdade, era uma busca de mostrar que o Japão dominaria a economia mundial nos 30 anos seguintes. Nos anos 1980, os americanos estavam preocupados com a invasão japonesa e o crescimento da economia do país oriental. Hoje, depois de quase duas décadas com a economia estagnada, o Japão deixou de ser visto como uma ameaça. O que ninguém previa, em 1985, era a emergência da China, novo alvo de temor de alguns americanos.

Carros voadores também aparecem no filme. Aliás, mesmo antes dos carros, já se pensava em um futuro em que carruagens poderiam voar, conforme mostra o livro Yesterday’s Tomorrow, que relata uma série previsões feitas no passado sobre como seria o futuro em diferentes épocas. Pelo menos por enquanto, a previsão de carros voadores, como os de De Volta Para o Futuro, está descartada, apesar de empresas pequenas como a Moller produzirem veículos capazes de voar. Os obstáculos são econômicos e de segurança. A tendência da indústria automobilística é construir carros com menor consumo de combustível. Além disso, depois do 11 de Setembro, o problema da segurança se intensificou. Com milhões de carros voadores circulando pelo mundo, não seria muito difícil para um terrorista cometer um atentado lançando o veículo contra um estádio lotado. E seria quase impossível controlar as fronteiras ou parar um criminoso.

Estas previsões de como sobre como será o mundo em daqui a algumas décadas não são um fenômeno dos anos 1980. Julio Verne talvez tenha sido um dos que mais acertou sobre como seria o futuro, antecipando até mesmo os submarinos, em obras como “Vinte mil Léguas Submarinas” ou “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, ambos do século 19. H.G. Wells, em 1895, escreveu “A Máquina do Tempo”, onde descrevia como seria a civilização no ano 802.701. Edward Bellamy, em seu “Looking Backward”, publicado no fim do século 19, conta a história de um jovem que viaja de 1887 para o ano 2000, onde encontra uma sociedade igualitária.

Steve Jobs e Chanel
Um erro comum das previsões de futuros feitas no passado foi a existência de robôs com formas humanas em casa ou do uso de elevado número de botões. Nos anos 1980, quanto maior a quantidade de botões, mais moderna era considerada a máquina. Esta noção terminou com o lançamento do Ipod, da Apple, em que Steve Jobs conseguiu colocar em uma pequena caixa milhares de músicas que podem ser tocadas apenas com o uso de dois botões, optando por uma solução minimalista – algo próximo ao que Coco Chanel fez na moda no século 20. O Iphone levou o mesmo conceito para a telefonia. O Nexus One, da Google, planejava uma nova revolução, mas tem sido visto por analistas como apenas mais um celular inteligente, apesar de alguns novos avanços. De qualquer forma, será mais um aparelho que mesmo há cinco anos, em um passado recente, tirando nerds do Silicon Valley ou pesquisadores do MIT, poucos poderiam sonhar que fosse existir em 2010.

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