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Da Turquia ao Alasca – O Lula turco (Erdogan) e o Lula americano (Palin) podem ser a personalidade do ano

gustavochacra

22 de novembro de 2010 | 11h55

Lula não está cotado para personalidade do ano da revista Time. Mas sua alma gêmea turca, Recep Tayyip Erdogan, lidera a pesquisa com os leitores da publicação na internet. E está disparado em primeiro lugar, provavelmente por votos de turcos. O curioso é que as pessoas podem votar apenas em quem foi incluído em uma lista. O presidente do Brasil ficou de fora. Nem com uma ampla campanha conseguiria ser vencedor.

Erdogan pode ter sido o homem do ano no Oriente Médio por seu envolvimento na Flotilha de Gaza e na questão nuclear iraniana. Também transformou a Turquia novamente em centro do que um dia já foi o Império Otomano. Mas acho que homem do ano, no mundo, pode ser um pouco demasiado.

Lady Gaga vem em segundo lugar. Não sou muito ligado em cultura pop. Mas imagino que ela seja uma espécie de Madonna dos millennials. Julian Assange, do Wikileaks, está em terceiro. Realmente, um nome de peso. Conseguiu divulgar dezenas de milhares de documentos secretos americanos sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque. Também possui uma personalidade polêmica, sendo inclusive acusado de estupro.

Jon Stewart e Steven Colbert, que são dois comediantes americanos, ocupam quarto lugar. Ambos podem ser considerados, ainda que não se levem a sério, duas das figuras mais influentes dos liberais (esquerda, no sentido americano) dos Estados Unidos. Mas personalidade do ano seria uma piada. O apresentador da FOX News Glenn Beck, que se leva a sério e é um dos mais influentes conservadores (direita), também seria forçado demais para pessoa do ano.

Steve Jobs, o sexto, para mim, é o homem da década, não apenas do ano. Ele revolucionou a forma como vivemos, como escutamos música, como falamos ao telefone. Pode ser capa da Time em qualquer ano. Em 2010, seu nome é forte por ter lançado o iPad. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz no ano passado, é outro que pelo próprio cargo poderia ser a personalidade do ano da Time sempre. Inclusive, já foi em 2008. Não tem sentido ser bi-campeão agora.

Depois de Obama, estão os desempregados americanos. Acho que eles poderiam ter sido no ano passado. Mas, neste, por mais que o índice de desemprego permaneça elevado, não representariam o pequeno aquecimento da economia.

Eles superam o mineiros chilenos. Na minha opinião, estes podem ter sido a história do ano, junto com o terremoto no Haiti. Mas não como personalidades do ano. Aliás, apenas como recordação, queria lembrar dos sobreviventes do acidente aéreo dos Andes nos anos 1970. Eles perderam parentes, ficaram isolados meses no frio e sobreviveram graças ao canibalismo.

A décima colocada na votação, por enquanto, é Sarah Palin. Um dia ela certamente será a personalidade do ano. Acabei de assistir ao programa dela na TV. Podem divergir de suas opiniões. Eu, por exemplo, a considero islamofóbica, mas acho que seja mais por ignorância do que preconceito. Seria como alguns críticos do islã no Brasil que nunca viram um muçulmano ao vivo ou pisaram no Oriente Médio. Criticam sem saber o que estão falando. São islamofóbicos sem saber o que é o islamismo.

Mas Palin, em seu reality show, demonstra ser uma pessoa simpática e carismática. Difícil ficar com raiva dela. Lembro de quando morei na Carolina do Sul. Ela é idêntica de jeito às mães dos meus amigos americanos da high school, com seu moleton azul, a camiseta vermelha, o sorriso. Assim como o Lula se identifica com o “povo brasileiro”, a Sarah Palin se identifica com o “povo americano”. Ela, e não o Obama, é o Lula americano. E com chance de ser presidente e personalidade do ano. Com o crescimento do Tea Party, meu voto, para a capa da Time, seria dela – ou do Jobs, claro.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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