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de 1981 a 2011 – Mubarak é da época da Telesp, Zico, Figueiredo, Transbrasil e misto-quente

gustavochacra

12 de fevereiro de 2011 | 11h47

No Twitter @gugachacra

Quando Hosni Mubarak assumiu o poder, eu não havia aprendido a ler. Hoje, tenho 34 anos. O presidente do Brasil era Figueiredo. Nos EUA, Ronald Reagan. A União Soviética ainda duraria mais uma década antes de se dissolver. Faltavam oito anos para a queda do muro de Berlim. A China estava longe de ser uma potência econômica.

O Líbano enfrentava uma Guerra Civil. Ainda não havia ocorrido o massacre de Sabra e Chatila. Yasser Arafat vivia no exílio. A Primeira Intifada estava distante. Moradores de Gaza trabalhavam em Tel Aviv. Saddam Hussein era aliado dos Estados Unidos. Os americanos também patrocinavam radicais islâmicos para lutar contra soviéticos no Afeganistão. Barack Obama era um aluno tímido da Universidade Columbia, onde se formou em ciência política antes de ir estudar direito em Harvard.

Wael Ghonim, o jovem executivo do Google que encantou por seu carisma nos levantes do Cairo, havia acabado de nascer. Já o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, ainda demoraria mais quatro anos. Não existia internet e nem celulares. A TV Globo era chamada de canal 5. O Estadão não circulava às segundas-feiras.

A economia brasileira era fechada. Nem mesmo tênis podiam ser importados. Os raros computadores eram uma tela preta com letras verdes. As companhias aéreas brasileiras eram a Varig, Vasp e Transbrasil. O craque da seleção era o Zico, que se tornaria campeão mundial pelo Flamengo. Ainda procurávamos telefones na lista. E fazíamos fila no verão para ligar da praia para São Paulo em orelhões. Não existia o sambódromo do Rio. As camisas dos times ainda não possuíam patrocinador.

As pizzarias serviam apenas mussarela, calabresa, portuguesa ou catupiry. Strogonoff era prato chique, de festas. Sanduíches eram o misto quente e o cheese-salada. Não existia refrigerante diet, a não ser a TAB, rara no Brasil. Começavam a falar de uma doença chamada AIDS. As bandas de rock dos anos 1980 eram novidade. Ninguém falava do Litoral Norte, a não ser surfistas mais aventureiros que descreviam uma praia chamada Maresias. Meus irmãos tinham vergonha de dizer que nossa casa de praia era em Juquey porque confundiam com o hospício Juqueri.

Quando Mubarak assumiu o poder, havia ditadura em todo o Leste Europeu, na maior parte da América Latina e da África e em mais da metade dos países asiáticos. Mubarak é da era de Suharto, Ferdinando Marcos, Augusto Pinochet, Leopoldo Galtieri, Alfredo Stroessner, Hafez al Assad, Mobutu Sese Seko, Baby Doc. Mubarak é da época do Apartheid na África do Sul. Mubarak é passado. Esperamos apenas que o Egito avance para o futuro.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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