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De Andorra às Maldivas – Como os países minúsculos vêem os grandes temas internacionais

gustavochacra

15 de outubro de 2010 | 10h38

Todos os anos, ao longo de duas semanas, chefes de Estado de 192 países, ou seus representantes, discursam para apresentar ao mundo as posições de política externa de seus governos na Assembléia Geral da ONU em Nova York. No dia seguinte, jornais de Jacarta a Buenos Aires, publicam o que disse Barack Obama. Líderes folclóricos, como Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e Muamar Kadafi também deixam suas marcas ao atacar os Estados Unidos, seguindo os passos de Fidel Castro em outros anos.

Presidentes, premiês e chanceleres do Brasil, que tradicionalmente faz a abertura da assembléia, França, Alemanha, Rússia e outras nações de importância econômica e política também têm os discursos analisados por diplomatas e jornalistas redor do mundo. Mas quase ninguém se importa com o que dizem os países minúsculos na tribuna da ONU, apesar de, na Assembléia Geral, eles terem o mesmo peso da China e da Índia.

Estes micro-Estados se dividem em dois grupos em seus discursos. Há os que preferem falar de seus problemas locais e os mais preocupados com os grandes acontecimentos do mundo. Jaume Bartumeu Cassany, chefe de governo do Principado de Andorra, único país do mundo que tem o catalão como língua oficial, lembrou que sua nação, em 700 anos, nunca se envolveu em um conflito armado apesar de estar no coração da Europa, sendo, portanto, a favor do desarmamento internacional. Mônaco e San Marino, outros dois principados europeus, se focaram na defesa das mulheres.

As ilhas Maldivas demonstraram preocupação com o crescimento da islamofobia, tema que teve destaque nos discursos de outros países.  Assim como quase todos países-arquipélagos no Índico, no Pacífico e no Caribe, Seychelles alertaram o mundo para os riscos das mudança climáticas que podem levar ao desaparecimento de muitos destes Estados. Já Tonio Borg, vice-premiê de Malta, preferiu debater o conflito entre israelenses, lembrando que seu país fica no meio do Mediterrâneo, entre a Europa e o mundo árabe.

O chanceler do Brasil, Celso Amorim, talvez tenha ficado com inveja do discurso de Tuila’Epa Sailele Malielegaoi, primeiro-ministro das Ilhas Samoa. “Nunca deixamos de lado nosso apoio à expansão do Conselho de Segurança, tanto de seus membros permanentes, como não permanentes. As realidades geopolíticas mudaram”, afirmou o primeiro-ministro. Seguindo a linha maltesa, também defendeu uma solução de dois Estados para palestinos e israelenses – posição adotada pelo chanceler de São Tomé e Príncipe. O Reino da Suazilândia, África, foi mais longe e também fez propostas para a solução de conflitos no Afeganistão e no Iraque.

Defendendo o fim do embargo a Cuba e a construção do Centro Islâmico em Manhattan, o presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta, não escondeu que poucos se importariam com o que ele diria no seu discurso, acompanhado por meia-dúzia de pessoas em um plenário vazio. “Eu me sinto um filme de Fellini falando para uma sala vazia, falando para fantasmas. Espero que, em compensação, o senhor (presidente da Assembléia Geral, que é da Suíça) me dê uma caixa de chocolates suíços. Tampouco vou imprimir o discurso, porque ninguém lê. E vou falar pouco porque as pessoas devem estar cansadas de ouvir tanta gente”, disse o líder timorense.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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