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De Atenas a Istambul – A decadência grega e a vingança da esnobada Turquia

gustavochacra

19 de julho de 2011 | 11h06

no twitter @gugachacra

A Turquia, dez anos atrás, lutava para integrar a União Européia. Tentava fazer de tudo para ser mais um membro da Europa, afinal, desde a Revolução de Mustafá Kemal Ataturk, depois da Grande Guerra e do fim do Império Otomano, os turcos se consideram ocidentais, assim como os brasileiros.

Mas o Ocidente nunca considerou a Turquia europeia. Seria apenas uma porção do território que estava do outro lado do Bósforus. Era uma questão geográfica, não cultural e política. Franceses, ingleses e alemães não queriam dezenas de milhões de muçulmanos integrando esta comunidade. Mas quem mais se opunha à entrada dos turcos era a Grécia, antiga rival de Ancara.

Argumentos legítimos foram usados, como a repressão aos curdos e a questão cipriota.  A Turquia patrocina uma política de assentamentos turcos na parte norte do Chipre em ação não reconhecida pela ONU.

Sem alternativa, a Turquia decidiu ignorar a Europa e olhar para a parte do seu território que não seria ocidental. Estabeleceu relações com ex-repúblicas soviéticas, como o Azerbaijão. Ampliou as relações com o Irã, a antiga Pérsia, que era o grande adversário dos otomanos em outros séculos.

Os países árabes, que também foram parte do império dos turcos até a derrota quase um século atrás, também voltaram a ser zona de influência do povo da Anatólia. Líbano, Síria e Jordânia são importantes parceiros comerciais. Empresários de Istambul mantêm negócios nestas nações. As relações com Israel se deterioram a partir de 2009, mas começam a ser cicatrizadas.

Erdogan e o AKP arrumaram as finanças. A Turquia seria hoje o país mais próximo de poder ter a sua letra inicial agregada aos BRICs. É quase um Brasil. Sem esquecer que integra a OTAN, com o segundo maior contingente militar. O euro e a União Européia? Bom, a Grécia, que tantas barreiras impôs aos turcos, deve afundar e corre elevado risco de voltar a adotar o drakma. Sua influência política é zero. Virou uma minúscula nação decadente, internada na UTI e apenas adiando uma morte certa como a da Argentina de 2001. Com a diferença de que não existe uma agricultura como a dos platinos para ajudar no renascimento.

Enquanto a Turquia se tornou um dos maiores atores internacionais na resolução da crise síria, a Grécia é a sua própria crise. Hoje, os turcos são os vencedores. Eles não precisaram da Europa.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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