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De Atlanta a Beirute – Como Thomas Friedman e a jornalista da CNN explicam a imprensa e o Oriente Médio

gustavochacra

18 de julho de 2010 | 10h20

Thomas Friedman é judeu, americano e colunista do New York Times. Foi correspondente do jornal no Líbano e em Israel, onde recebeu dois prêmios Pulitzer e escreveu o livro “From Beirut a Jerusalem”. Ao longo dos seus mais de 30 anos de carreira, precisou lidar com ataques da direita israelense e americana que o via como um liberal, defensor dos árabes. E, ao mesmo tempo, era descrito como porta-voz do lobby judaico pelos críticos de Israel.

Otavia Nasr é cristã, libanesa e foi editora de Oriente Médio da CNN até o início de julho, quando a rede de TV a demitiu. A  jornalista havia publicado no Twitter que estava triste com a morte de Mohammad Hussein Fadlallah, líder xiita libanês e classificado por ela como um “gigante do Hezbollah”. Minutos depois, era atacada por defensores de Israel. Segundo a CNN, apesar de todas as suas qualidades, a repórter comprometeu a sua credibilidade com a frase.

Na sua coluna de hoje do New York Times, Friedman condena a decisão da CNN. Para o colunista, certamente um dos maiores e melhores do jornalismo mundial apesar de alguns erros durante a Guerra do Iraque, Nasr sempre foi correta como editora e seus 20 anos na empresa foram ignorados na hora da decisão. Na avaliação dele, a editora poderia ter sido suspensa, mas não demitida.

Segundo Friedman, jornalistas como Nasr são importantes, pois conhecem a região. “Eu prefiro receber as notícias da CNN de uma repórter que consegue explicar o porquê de milhares de homens e mulheres idolatrarem um clérigo xiita – e que nós consideramos nada mais do que um terrorista – do que um repórter que não sabe nada ou, pior, não tem coragem de dizer”.

Friedman usa acadêmicos para explicar a figura de Fadlallah, que é muito mais complexa do que a de “um terrorista do Hezbollah” – aliás, ele sequer era do grupo, conforme escrevi no dia seguinte à morte dele. Disse aqui no blog há duas semanas que “Fadlallah, nascido no Iraque, era idolatrado pelos xiitas e pelo Hezbollah. Apesar de sempre apoiar a organização, ele evitava se envolver com as determinações do xeque Hassan Nasrallah e nunca tentou ser líder ou integrar o grupo que é considerado terrorista por Israel e os Estados Unidos. Ao contrário, se mantinha distante, buscando aproximar os xiitas das outras facções sectárias libanesas. Também tentava modernizar o islamismo xiita, o adaptando à liberal sociedade libanesa. Em suas fatwas, Fadlallah defendeu a clonagem, o uso de alguns  anti-concepcionais e o transplante de órgãos – estes três pontos são condenados por lideranças xiitas do Irã”.

O colunista do New York Times foi na mesma linha. “Fadlallah claramente odiava Israel, apoiava ataques contra israelenses e se opunha à presença de tropas dos EUA no Líbano e no Iraque. Mas ele também era contra o dogmatismo do Hezbollah e à obediência ao Irã. Ele queria que os xiitas libaneses fossem independentes e modernos e construiu uma rede regional de seguidores que seguiam os seus comentários sociais”, escreveu Friedman.

Jornalistas especializados em Oriente Médio muitas vezes têm a sua origem na região. São judeus, persas ou descendentes de libaneses, como no meu caso – meus avós imigraram para o Brasil. Outras vezes são pessoas sem ligação familiar com a região, mas que desenvolvem laços afetivos ao longo da vida, seja através do estudo de uma língua, de morar em Beirute, Jerusalém ou Cairo ou mesmo através das reportagens. Esta ligação ajuda, pois nossa obrigação é explicar a região para leitores e telespectadores em Chicago, São Paulo, Paris ou Tóquio.

Isso não significa que um jornalista judeu odiará árabes e um palestino será anti-semita Ou alguém que vive em Ramallah não irá querer em Tel Aviv ou um repórter baseado em Jerusalém terá raiva de Teerã. Ao contrário, as maiores críticas aos regimes árabes serão encontradas nos jornais de Beirute e em redes de TV como a Al Jazeera, do Qatar. De todas as nações democráticas, os artigos mais duros com Israel podem ser lidos no Haaretz e no Yediot Ahronot. No resto do mundo, a imprensa pode ser acusada de pró-Israel ou pró-Palestina. Na verdade, quase todos os jornalistas que conheço defendem uma solução de dois Estados. Alguns até achariam melhor um Estado único e democrático, mas sabem que nenhum dos lados concordaria atualmente.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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