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De Bagdá a Cabul – Os dois presentes dos EUA para o Irã

gustavochacra

26 de outubro de 2010 | 10h20

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O Irã foi quem mais se beneficiou das guerras do Afeganistão e do Iraque, conforme já escrevi aqui outras vezes. Os Estados Unidos removeram dois regimes hostis das fronteiras iranianas. De um lado, estava Saddam Hussein, que, com o apoio americano, travou um conflito contra o regime de Teerã com centenas de milhares de mortos nos anos 1980. Do outro, o Taleban, que segue uma corrente radical dos sunitas, quase levou os afegãos a uma guerra contra os vizinhos xiitas.

Sem os inimigos em Cabul e Bagdá, Teerã se sentiu livre para expandir a sua influência para outras regiões do Oriente Médio e da Ásia Central. O Iraque de Saddam Hussein servia como um escudo para impedir a expansão iraniana, apesar de o ditador iraquianos também ter sido inimigo da maior parte dos países da região. E os americanos, além de gastarem bilhões nas guerras, perderem milhares de jovens e ainda verem a sua imagem se deteriorar diante da opinião pública internacional, ainda os EUA sustentam governos no Afeganistão e no Iraque que são aliados dos iranianos de Teerã.

Conforme mostraram os documentos secretos do governo americano divulgados pelo Wikileaks, a influência iraniana não para de crescer no Iraque. A coalizão de poder proposta por Nuri al Amaliki deve contar com o clérigo radical xiita Moktada al Sadr, inimigo aberto dos EUA e com uma milícia treinada e armada pelo Irã. “A política iraquiana tem se distanciado da influência dos EUA”, me disse o ex-diretor de Inteligência do Departamento de Estado para o Oriente Médio Wayne White. Segundo o especialista, atualmente no Instituto de Oriente Médio em Washington, “é bem provável que a nova coalizão de governo de Maliki seja consideravelmente mais próxima do Irã do que dos Estados Unidos”.

Domingo, o New York Times acusou Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, de receber malas de dinheiro do Irã. Inicialmente, pensaram que o líder afegão fosse negar. Que nada. “O governo do Irã dá assistência à minha administração com cerca de quinhentos, seiscentos, setecentos mil euros duas vezes por ano em uma ajuda oficial. Isso é transparente e algo que discuti até mesmo com o ex-presidente George W. Bush. Não há nada a esconder. Os EUA fazem a mesma coisa. Eles dão malas de dinheiro. Sim, é a mesma coisa”, disse Karzai, sem a menor vergonha, esquecendo que nem existiria se não fosse pelos americanos.

Basicamente, os EUA gastaram bilhões de dólares para instalar um regime que se vende para o Irã por milhares de euros.

Portanto, vamos à equação para entender

Fronteira do Irã no ano 2000

Leste – Afeganistão governado pelo Taleban (Inimigo de Teerã)

Oeste – Iraque governado por Saddam Hussein (Inimigo de Teerã)

Em 2001, os EUA invadem o Afeganistão e removem o Taleban. Dois anos mais tarde, derrubam Saddam Hussein no Iraque

Fronteiras do Irã em 2010

Leste – Afeganistão governado por Karzai (Aliado de Teerã)

Oeste – Iraque governado pela coalizão de Nuri al Maliki (Aliado de Teerã)

Conclusão

Os EUA beneficiaram o seu maior inimigo na região

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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