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De Bagdá a Trípoli – Com a trégua, Kadafi e a Líbia cada vez mais se parecem com Saddam e o Iraque

gustavochacra

18 de março de 2011 | 11h53

no twitter @gugachacra

Com o cessar-fogo anunciado horas atrás, Muamar Kadafi e a Líbia se parecem cada vez mais com Saddam Hussein e o Iraque dos anos 1990. O líder iraquiano começou aquela década enfrentando um conflito contra os Estados Unidos e seus aliados que queriam a desocupação do Kuwait. Terminada a guerra, ele se enfraqueceu, mas tentou se vingar dos curdos no Norte do Iraque. Para evitar o massacre, foi estabelecida uma zona de exclusão aérea.

Mesmo isolado, ele aceitou a nova situação e decretou uma trégua, como Kadafi ontem. Produtor de petróleo, Saddam conseguiu se manter no poder. Não fosse a invasão americana em 2003, talvez estivesse hoje enfrentando levantes como outros líderes árabes ou estaria de novo em confronto com o Irã – sempre ficará a dúvida sobre como seria a sua relação com Mahmoud Ahmadinejad.

Kadafi, depois de se envolver em atentados terroristas nos anos 1980, também havia passado por bombardeios americanos e isolamento internacional. Vendo o destino de Saddam, em 2003, e temendo ser o próximo da lista, Kadafi optou por se aproximar do Ocidente. Cancelou o seu programa nuclear, admitiu o envolvimento com terrorismo, pediu desculpas e pagou indenizações. Mais importante, passou a enviar dinheiro para políticos e universidades da Europa e contratou uma empresa de Relações Públicas nos EUA com o objetivo de melhorar a sua imagem. As sanções internacionais foram levantadas. Seu petróleo, de boa qualidade, era comprado por Itália e França.

Até começarem os levantes árabes. Diferentemente de Hosni Mubarak e Ben Ali, o líder líbio, ainda que enfraquecido, conseguiu manter o controle de algumas áreas. Exatamente como Saddam em 1991, depois da derrota na Guerra do Golfo. Na Líbia, não há diferenças religiosas e étnicas, como no Iraque. Porém existem visões diferentes nas três áreas geográficas, especialmente a Cyrenaica, controlada pelos rebeldes, e Tripolitânia, nas mãos do regime. São separatistas geográficos, como os de Santa Cruz em relação a La Paz – nem todo movimento separatista precisa ter conotação religiosa ou étnica.

Hoje, podemos dizer que a Cyrenaica está para Kadafi assim como o Curdistão estava para Saddam. Será protegida por uma zona de exclusão aérea. A mesma iniciativa existiu no Iraque por 12 anos, até a invasão americana. Saddam conseguiu sobreviver todo este tempo. Apesar do embargo do petróleo, conseguia burlar as restrições. Kadafi deve seguir pelo mesmo caminho. Tem petróleo e controla o principal de seu território. O objetivo dos EUA e de seus aliados europeus é apenas impedir que ele cometa um massacre, como os de Saddam contra os curdos.

Há, para completar, mais um fator que une Saddam dos anos 1990 e Kadafi de hoje. Nos dois casos, os xiitas odiavam o regime. No Iraque, a maioria xiita era reprimida dentro de seu território pelo regime secular de Saddam, dominado por sunitas árabes com o apoio dos cristãos caldeus (religião do vice de Saddam Tariq Aziz). Além disso, houve a guerra contra o Irã nos anos 1980.

Já Kadafi é das pessoas mais odiadas pelos xiitas libaneses e isso pesou no voto do Líbano ontem no Conselho de Segurança. O maior líder xiita da história libanesa, Musa al Sadr, desapareceu na Líbia em 1978. Até hoje, em Beirute, todos dizem que Kadafi o matou.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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