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De Bagdá ao Cairo – O perigo da perseguição a cristãos e a minorias islâmicas nos levantes árabes

gustavochacra

09 de maio de 2011 | 11h28

no twitter @gugachacra

Até um ano atrás, cristãos não corriam riscos no Iraque, na Síria e no Egito. Estavam longe de ter o poder que possuem no Líbano, mas viviam bem, sem temer ir à igreja, usar um crucifixo e ter o nome de Boutros (Pedro) ou Boulus (Paulo). Eram como os demais habitantes de suas nações, apenas com uma religião diferente. Falam a mesma  língua, comem a mesma comida, vão às mesmas escolas e compartilham dos mesmos problemas.

O Iraque de Saddam Hussein, deposto em 2003, e a Síria dos Assad sempre defenderam os cristãos. O vice do líder iraquiano, Tariq Aziz, era cristão. Os caldeus também ocupavam outros cargos importantes no Baath. Em Damasco, não é diferente. Até hoje, o chefe das Forças Armadas da Síria é cristão grego-ortodoxo.

Com a queda de Saddam, os cristãos começaram a perder espaço e a serem perseguidos junto com os árabes sunitas pelos xiitas. Posteriormente, especialmente no ano passado, se tornaram alvos do braço da Al Qaeda no Iraque. Agora, os cristãos caldeus, um dos mais antigos do mundo, buscam refúgio na Síria e no Líbano, já que outros países do mundo praticamente não concedem asilo aos iraquianos – e isso inclui os Estados Unidos.

Na Síria, a crise do regime também assusta os cristãos. O discurso sectário, inexistente menos de um mês atrás, se acentuou nas últimas semanas. O alvo ainda não é o cristianismo, mas os alauítas. Esta facção do islamismo possui muita proximidade cultural com os cristãos, sendo uma das mais moderados entre os muçulmanos. E é justamente a religião de Assad, que não a segue por ser abertamente secular.

O discurso sectário costuma emergir em países em crise. Hutus e tutsis não se matavam em Ruanda nos anos 1970 e 80. Nos anos 1990, houve um genocídio. Muçulmanos bósnios e cristãos ortodoxos sérvios tampouco se odiavam nas décadas de Iugoslávia. Com fim do país, o sectarismo se agravou. No fim, se transformou em um Líbano, onde tampouco sunitas e cristãos se matavam nos anos de Paris do Oriente Médio.

Os judeus de Aleppo, de Bagdá, do Cairo e de Alexandria servem de exemplo para o que pode acontecer. Por séculos, compuseram a elite destas cidades, totalmente integrados à sociedade. Apenas com a criação de Israel, se tornaram alvo de perseguição daqueles que antes eram seus amigos e parceiros de negócios.

Muçulmanos dos EUA são outro exemplo. Antes do 11 de Setembro, ninguém sabia direito o que era islamismo. Lembre do Brasil, onde os seguidores do islã foram por muito tempo chamados de maometanos, além da música “Allah meu bom Allah”, no carnaval. De repente, viraram inimigos e vítimas de perseguição, mesmo que não tivesse nada a ver com a Al Qaeda.

No Egito, neste fim de semana, 12 cristãos foram mortos e duas igrejas queimadas. Os cristãos coptas nunca foram protegidos pelo regime de Mubarak, como acontecia no Iraque e ainda acontece na Síria. Na verdade, eram humilhados pelo ex-ditador. Tampouco são a elite. Integram a camada mais baixa da sociedade, a não ser por exceções como o ex-secretário geral da ONU, Boutros Boutros Ghali, que apenas confirma a regra.

Ainda assim, os ataques começaram apenas recentemente a se intensificar. A maior parte, como o último, por ignorância. Uma lenda dizia que uma virgem cristã teria se convertido ao islamismo e posteriormente sido presa em uma igreja. Isso nunca ocorreu, mas a história se difundiu. Grupos salafistas se aproveitaram disso e coordenaram os ataques, que contaram com a participação de pessoas comuns.

O Iraque e o Líbano são os exemplos dos perigos do sectarismo. A Síria e o Egito ainda não ficaram iguais, mas chegou a hora de abrir os olhos, ainda que, neste momento, os protestos sírios não sigam linhas sectárias.

Brasil no Líbano

Falando em cristãos, lembro que a maior parte dos imigrantes árabes para o Brasil têm origem cristã síria e libanesa, como o vice-presidente Michel Temer e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Em busca da união entre os dois países, o governo brasileiro inaugurou o Centro Cultural Brasil-Líbano, com a ajuda da embaixada em Beirute. O objetivo do centro, que é o primeiro no mundo árabe, será divulgar a língua portuguesa e a cultura brasileira no Líbano. Quem sabe, outros também sejam abertos pelo mundo árabe, Israel, Turquia e Irã.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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