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De Barcelona a Beirute – Catalães preferem independência à Copa do Mundo

gustavochacra

14 de julho de 2010 | 11h34

Desculpem o atraso para postar

Nem todos os países são como o Brasil. Na Copa do Mundo, brasileiros se unem para torcer pela seleção, independentemente de gostarem do Lula ou não. E, ao vermos outros países, imaginamos que fenômenos similares ocorram. Mas algumas coisas acabam sendo ignoradas, como no título da Espanha na África do Sul.

Os espanhóis não estavam 100% unidos nesta conquista. No dia anterior à maior vitória do futebol espanhol, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Barcelona para pedir a independência da Catalunha. Xavi e Puyol, herói da semifinal contra a Alemanha, fizeram questão de carregar o tempo todo com ele a bandeira catalã.

Dois catalães e um basco me repetiram ontem em Nova York o que já cansei de ouvir – catalães torcem pelo Barcelona; os bascos se dividem entre Real Sociedad e Atlético de Bilbao. A seleção da Espanha fica em um distante segundo plano e o título chega a ser indiferente para alguns mais radicais – verdade, muitos palmeirenses não querem o Filipão na seleção, mas dificilmente um torcedor do Palmeiras deixaria de torcer para o Brasil.

Eu acho que talvez a Catalunha e o País Basco pudessem, como a Escócia e a Irlanda do Norte, ter as suas próprias seleções na Copa do Mundo. A Palestina, mesmo sem ser independente, também tem seu time. Por que os catalães, que enfrentaram o Brasil há poucos anos, também não podem? Aliás, na época do franquismo, quando os movimentos catalães eram reprimidos, os torcedores do Barça aproveitavam as partidas para gritar “Catalunha” nas partidas, especialmente contra o Real Madrid.

No Líbano, havia uma propaganda de um banco há alguns anos em que pessoas se revezavam na tela dizendo – “Anna Marouni” (Eu sou Maronita); “Anna Sunni” (Eu sou sunita); “Anna Shia” (Eu sou xiita); “Anna Dursi” (Eu sou druzo); “Anna Rom Orthodox” (Eu sou Cristão Ortodoxo). E encerrava com uma pergunta – “Quando nós seremos apenas libaneses?”. A identidade libanesa vem depois, apesar do orgulho que todas as religiões possuem da bandeira dos cedros, uma das mais bonitas do mundo.

Em maio, visitei a minha família americana do intercâmbio na Carolina do Sul. Mais uma vez, me deparei com as inúmeras bandeiras dos confederados no alto de algumas casas. Quase um século e meio depois da derrota na Guerra Civil, eles ainda tem orgulho de um sul racista e escravocrata que “o vento levou”.

No Brasil, nas eleições, apesar de diferenças óbvias entre Porto Alegre e Manaus, há uma homogeneidade de todos se considerarem brasileiros. Temos fronteira com dez países, mas não há uma única cidade dentro do nosso território que não tenha o português como primeira língua. E não deixamos nenhuma vila do outro lado da fronteira falando português em países de língua espanhola.

Falando nisso, duas coisas eu não entendi em toda a Copa do Mundo.

1) Por que o Suriname e a Guianas não participam das Eliminatórias da América do Sul?

2) O polvo alemão acertou o resultado de oito jogos na Copa. As pessoas dizem que a chance de isso ocorrer é 1 em 256. Porém eles levam em conta que sempre há duas opções de resultado em cada jogo. Na verdade, como sabemos, na primeira fase, há três – vitória, empate e derrota. Curiosamente, apresentaram ao polvo alemão apenas duas. Ele não tinha o direito de acertar caso a Alemanha empatasse. Portanto, a chance de certo dele é 1 em 864.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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