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De Beirute a Buenos Aires – A falta de Justiça nos atentados terroristas contra AMIA e Rafik Hariri

gustavochacra

05 de julho de 2011 | 10h35

no twitter @gugachacra

Tirando os teóricos da conspiração, ninguém questiona que a Al Qaeda esteja por trás do 11 de Setembro. Os ataques terroristas contra israelenses durante a segunda Intifada sempre foram reivindicados por alguma organização, como o Hamas, o Jihad Islâmico ou as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, ligadas ao Fatah. Mesmo as ações em Londres e Madri tiveram os autores facilmente descobertos. Os atentados no Iraque ou no Afeganistão também raramente são anônimos.

Mas nem sempre sabemos quem realizou um ato de terrorismo. Seja por ninguém assumir a autoria, seja por não haver uma investigação clara. Dois destes ataques ocorridos no passado voltam a chamar a nossa atenção atualmente. Primeiro, o que matou Rafik Hariri, então ex-premiê libanês e líder da oposição, quando o seu carro passava diante do Hotel St. George, na marina de Beirute. O outro, contra a AMIA, em Buenos Aires, 17 anos atrás e dois depois de um outro ataque contra a embaixada de Israel no mesmo país.

No primeiro, as investigações da ONU apontam para o Hezbollah. No outro, a Justiça argentina acusa o Irã, usando integrantes da organização xiita libanesa. O grupo, assim como regime de Teerã, negam envolvimento. O xeque Hassan Nasrallah declarou que não entregará os membros do Hezbollah, afirmando se tratar de uma conspiração de Israel e dos EUA. Oito iranianos, também procurados pela Interpol pelo suposto envolvimento no ataque contra a AMIA, continuam protegidos pelo regime de Teerã.

Estes dois episódios são importantes pois definiriam claramente se o Hezbollah é um grupo terrorista ou apenas uma milícia. Na Guerra do Líbano, em 2006, a organização agiu como guerrilha, usando armamentos convencionais. Durante a ocupação israelense do sul do Líbano, havia o argumento de insurgência, por se tratar de um Exército estrangeiro. Até hoje, o grupo xiita jamais cometeu um ataque terrorista com suicidas dentro de Israel, diferentemente do Hamas, que já assumiu dezenas ou mesmo centenas.

O ataque contra um vôo da TWA, em 1985, e os mega atentados contra os marines americanos, em Beirute, dois anos antes, e contra a Embaixados dos EUA no Líbano, no mesmo ano, ocorreram antes de organização utilizar este nome e ter definido as suas diretrizes. O mesmo se aplica às acusações de seqüestro de cidadãos americanos nos anos 1980. Naim Qassem, número dois do Hezbollah, diz em seu livro que os responsáveis por estas operações são ideologicamente próximos à organização, mas isso não implica em culpa. Ele também descarta ações do grupo em outras partes do mundo.

Analistas divergem sobre o papel do Hezbollah nestas operações. Magnus Ranstorp, um sueco que estuda terrorismo, tem uma posição similar à dos americanos. Amal Saad Ghorayeb, principal especialista em Hezbollah no Líbano, discorda. Robert Baer, principal agente da CIA nos anos 1980, acredita que o Irã, e não o Hezbollah, foi o responsável pelos ataques contra os marines, em uma ação que poderia ser considerada a predecessora da AMIA.

Matar Hariri nas ruas de Beirute ou civis argentinos em Buenos Aires é terrorismo e as ações ocorreram quando o grupo já estava formado. Não há discussão. E o Hezbollah, assim como o Irã, é acusado. Nos dois casos, foram abertas as portas para o direito de defesa. Mas o grupo e o regime de Teerã se recusam. Notem que a Argentina tem um governo longe de ser aliado de Israel, mais próximo da Venezuela, inclusive. Não dá para dizer que Washington mande na Justiça argentina. No caso de Hariri, o próprio Líbano pediu para que a ONU criasse o tribunal. O Hezbollah estaria ferindo a soberania do próprio país.

Tanto a oposição libanesa, comandada por Saad Hariri, filho do premiê assassinado, como a comunidade judaica da América Latina pedem justiça nos dois atentados atribuídos ao Hezbollah, com a ajuda do Irã, pelo menos no segundo caso.

Existem argumentos que poderiam ser usados pelo Hezbollah nos dois casos para se defender. Em ambos, ocorreram falhas graves durante a investigação. No ação da AMIA, há até mesmo a acusação de que o então presidente Carlos Menem teria recebido suborno do Irã para intervir no caso. Pessoas foram presas e depois soltas. Juízes são acusados de corrupção. Existem poucas testemunhas.

Além disso, diante dos levantes na Síria, é interessante notar como, nos dois casos, tanto na morte de Hariri como na atentado da AMIA e da Embaixada de Israel, o regime de Damasco foi inicialmente acusado e depois deixado de lado. No Líbano, todos conhecem as táticas sírias. Muitas das ações atribuídas ao Hezbollah e ao Irã teriam sua origem na verdade em Damasco.

Menem era filho de sírios. Sua mulher era síria, nascida e criada. O ex-presidente possuía fortes ligações com Hafez al Assad e membros do regime quando foi eleito. Há suspeitas de que, quando candidato, Menem teria recebido US$ 40 milhões de Hafez al Assad. Em troca, o argentino, depois de eleito, venderia tecnologia nuclear e armamentos. Mas Menem não cumpriu a promessa. No fim, o então presidente se aliou fortemente aos americanos, apesar de sua origem peronista, de esquerda.

Menem enviou tropas argentinas para a coalizão americana na Guerra do Golfo. Este não foi um grande problema para Assad, que não era aliado de Saddam Hussein. Muito menos para o Irã, que sempre foi o maior inimigo do ditador iraquiano – bem mais do que Israel e EUA. O que irritou o líder sírio foi a visita de Menem a Israel, antes de ir a Damasco, como presidente.

Em julho 1994, ocorreu o ataque terrorista contra a AMIA, dois anos depois da Embaixada de Israel. Menem visitou a Síria em novembro daquele mesmo ano. Há relatos atribuídos a Zulema Yoma, então primeira-dama e síria de Yabrud, e Domingo Cavallo, ministro da Economia, dizendo que o presidente e Assad tiveram uma dura discussão no encontro entre eles. Em janeiro de 1995, Carlitos Menem morreu em um acidente de helicóptero. A ex-mulher de Menem nunca escondeu imaginar que se tratava de um atentado. Para muitos, com o dedo de Damasco. As ligações entre o menemismo e Assad eram profundas. E, em guerra de mafiosos, muita coisa acontece.

Independentemente do que ocorreu, uma investigação ocorreu e existem suspeitos. Estes deveriam responder na ONU e na Justiça argentina. Nenhuma das duas coisas irá ocorrer. Talvez nunca saibamos quem cometeu o maior atentado terrorista da história da América Latina. E tampouco quem foi responsável pelo ato de terrorismo que matou um dos principais líderes democráticos da história do mundo árabe.

Em busca desta justiça, o Congresso Judaico Latino-Americano lançou uma campanha com uma petição para ser entregue à presidente da Argentina. Os interessados podem entrar no site www.justiciaporamia.org e www.signforjustice.org.

A iniciativa é de extrema importância. Muitos criticam quando um país reage a um atentado terrorismo com guerra. Mas esta ação do CJLA busca apenas a Justiça, de um país vizinho ao Brasil. O atentado ocorreu na Argentina. Mas São Paulo não é imune ao terrorismo. Pelos motivos que citei acima, acho que outras frentes de investigação deveriam ser abertas. Mas a Justiça da Argentina concluiu que foi o Irã, com a ajuda do Hezbollah. Se este foi o caso mesmo, o Brasil também poderia ter sido alvo. E, em vez da AMIA, poderia sido a Hebraica.

As vítimas da AMIA eram civis argentinos. Alguns tinham origem judaica, outros não. Dê uma certa forma, este foi o ataque terrorista mais próximo de nós brasileiros. Infelizmente, ainda está impune, assim como o da Embaixada de Israel e o contra Rafik Hariri no Líbano.

Juntei estas duas ações, assim como a contra os marines no Líbano, porque acredito que elas estejam relacionadas de alguma forma. Escrevi um longo paper em inglês quando estava na Columbia sobre o atentado contra AMIA, mas ficaria muito grande para colocar aqui. Quem tiver interesse, me avise.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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