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De Beirute a Damasco – Na Síria, a religião importa menos do que no Líbano

gustavochacra

27 de abril de 2011 | 08h42

Existe uma diferença fundamental no sectarismo libanês e no sírio. No Líbano, ao desembarcar no aeroporto com meu sobrenome Chacra, os oficiais de imigração sempre me perguntam a religião. Ficam satisfeitos apenas depois de eu dizer que meu avô era cristão ortodoxo. Havia até uma propaganda de um banco no passado em que uma sucessão de pessoas dizia – “Eu sou cristão maronita; Eu sou muçulmano sunita; Eu sou muçulmano xiita; Eu sou cristão ortodoxo; Eu sou druzo”. Em seguida, a voz do locutor completava – “Quando seremos libaneses?”
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Na Síria, isso não existe. Os sírios acham deselegante perguntar a religião. Caso sejam questionados, responderão indagando o motivo da pergunta. Dificilmente falarão sou “sunita” ou “alauíta”. Preferirão sempre a definição “muçulmano”. Os cristãos sírios sempre foram bem integrados à sociedade. A noção de uma religião contra a outra é menor
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As diferenças entre a Síria e o Líbano se devem à construção destas duas sociedades. Desde o mandato francês, havia separação religiosa no poder em Beirute. Conforme escrevi diversas vezes, no Líbano, por lei, o presidente precisa ser cristão maronita, o premiê, sunita, e o presidente do Parlamento, xiita. Metade dos deputados é muçulmana; a outra, cristã. Estas divisões seguem pela sociedade libanesa.
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Na Síria, nunca houve diferenças entre os grupos religiosos. Todos são sírios e ponto final. Verdade, por lei, o presidente ainda precisa ser muçulmano. Mas, na prática, também precisa ter sobrenome Assad, o que nivela todos os demais cidadãos.
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Mesmo na época do Império Otomano, especialmente em seu final, os cristãos sírios eram tratados de forma distinta da dos libaneses. Os primeiros eram obrigados a servir nas Forças Armadas otomanas. Os do Líbano, não. O governador da subprovíncia do Monte Líbano era cristão, ainda que não árabe. Os cristãos de Damasco e Aleppo eram governados por uma administração muçulmana.
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As diferenças nas divisões religiosas no Líbano e na Síria ajudam a entender a menor possibilidade de uma disputa sectária em Damasco quando comparada a Beirute.
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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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