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De Beirute a Damasco – O risco de a Síria virar o Líbano dos anos 1980

gustavochacra

12 de maio de 2011 | 11h33

no twitter @gugachacra

Os levantes no Egito e na Tunísia encantaram todo o mundo. Ditadores foram removidos do poder. Ocorreram mortes, mas não em larga escala. O Yemen já era um Estado falido há algum tempo e as manifestações que devem culminar na queda de Abdullah Saleh são apenas mais um episódio de uma nação onde inexiste uma autoridade central.

A Líbia, Bahrein e Síria são diferentes. Os líbios já se enfrentam em uma guerra civil. Os confrontos ainda não podem ser classificados assim nos outros dois países, mas o risco cresce cada vez mais. E com o agravante de que poderiam se transformar em conflitos sectários, diferentemente da Líbia, onde a população é mais homogênea e os enfrentamentos são geográficos.

Escrevi aqui que os protestos na Síria não seguem linhas sectárias. Há alauítas, sunitas, cristãos e curdos a favor e contra Bashar al Assad. Porém, se o regime cair no médio prazo (discutirei o assunto em outro post), os discursos sectários devem se acentuar, como na Iugoslávia e em Ruanda, conforme escrevi aqui outro dia. Milícias baseadas na religião poderiam ser formadas e Damasco se converteria em uma Beirute dos anos 1980 ou uma Bagdá de 2005, 2006 – convenhamos, melhorou um pouco, mas também falarei do Exército Mahdi, o novo Hezbollah, em outro post.

Em uma guerra civil, vizinhos antes amigos e parceiros nos negócios, começam a se matar. Filmes como Incêndios, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, retratam como este conflito afetou uma família no Líbano. Não existe bem e mal nestes conflitos. Em uma cena, milicianos cristãos matam todos os passageiros muçulmanos de um ônibus e ainda ateiam fogo no final. Era uma represália a ação de grupos palestinos que teriam arrasado vilas cristãs no sul libanês. Provavelmente, também havia sido uma resposta a outro ataque e nunca saberemos quem começou.

Surgem os senhores da guerra que controlam seus feudos. Traficam armas, treinam jovens e realizam lavagem cerebral. Eles ganham dinheiro com o conflito, apesar de realmente terem uma ideologia por trás. A religião tem um papel, mas alguns dos episódios mais violentas da guerra civil libanesa envolveu lutas de cristãos contra cristãos no fim dos anos 1980. Xiitas também se confrontaram.

Famílias são desfeitas. Toda uma população fica traumatizada. No Líbano, quase toda família perdeu alguém na guerra. Homens que estão hoje na faixa dos 50 anos tentam esconder de seus filhos o envolvimento deles no conflito. Eles mataram outros pais e outros filhos. Alguns imigraram para o Canadá. Outros para o Brasil. E sempre guardarão as marcas desta guerra onde irmãos e primos se mataram aos milhares.

O centro de Beirute era uma cidade fantasma quando visitei o Líbano pela primeira vez nos anos 1990. Hoje, está reconstruído. Mas as marcas de bala deixam como registro os 15 anos em que libaneses se mataram sabe-se lá por qual motivo. Em uma década e meia e dezenas de milhares de mortos, quase nada havia mudado quando assinaram os Acordos de Taif. Como no filme Poderoso Chefão, todos se matam e depois os chefes mafiosos se reúnem com os seus inimigos para acertar as novas regras. O Oriente Médio, especialmente no Líbano e na Síria – e, agora, nos territórios palestinos – é assim.

Por este motivo, dá para entender os Estados Unidos tomarem o máximo de cuidado ao comentarem da Síria para que Damasco não se transforme em Bagdá ou Beirute. A culpa, por enquanto, é 100% do regime que não se democratizou durante dez anos. A posição americana pode ser refletida na seguinte afirmação do porta-voz do Departamento de Estado.

“Eles continuam ampliando as suas ações violentas contra manifestantes pacíficos. Obviamente, hoje (ontem), há relatos de que eles começaram a atacar os manifestantes. Estamos verificando se os relatos são acurados ou não. Mas podemos dizer que as medidas repressivas, como a campanha de prisões arbitrárias, a recusa de atendimento médico dos feridos e as condições desumanas dos detidos são atos bárbaros que representam a punição coletiva de civis. O governo sírios precisa entender que isso não é do interesse da Síria e a janela de oportunidade está se fechando. É preciso mudar o foco e atender às aspirações legítimas do povo”.

Bouthaina Shaaban, principal assessora de Assad, disse ao New York Times que as declarações dos EUA não foram “tão ruins” e que dá para viver comas sanções impostas pelas EUA e União Européia. Lamentavelmente, Shaaban, a quem entrevistei três vezes no passado, acrescenta que “esta arma foi usada contra a gente muitas vezes. Mas, uma vez que a segurança retorne, tudo será resolvido. Não viveremos nesta crise para sempre”.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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