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De Beirute a Jerusalém – Espiões no Oriente Médio perdem o glamour

gustavochacra

25 de julho de 2010 | 09h15

Em Beirute, expatriados e libaneses sempre brincam nos cafés da cidade ao dizer que desconfiam que o interlocutor com quem estão falando na verdade é um agente secreto do Mossad, o serviço secreto de Israel, ou da Mukhabarat, como são chamados os serviços de inteligência do mundo árabe. A suspeita é óbvia, já que o Líbano, por ter um governo fraco e grupos ligados a iranianos, sírios, americanos e sauditas, sempre foi um destino comum para espiões.

Dependendo da aliança ou dos interesses, a Muhabarat síria, o Mossad, a CIA, ou mesmo agentes do Hezbollah, de grupos palestinos e de facções cristãs serão acusados dentro das mais elaboradas teorias da conspiração que circulam primeiro em Beirute e depois se difundem pelo restante do mundo árabe.

De todos, os únicos realmente investigados são os espiões à serviço de Israel. No aeroporto de Beirute, ninguém entra se tiver um carimbo israelense no passaporte. Se o “r” no sotaque em inglês for muito forte, como o do hebraico, o estrangeiro pode ter problemas.

A desconfiança de espiões de Israel, que por muitos anos estava no lado da conspiração, descobriu-se real com o desmantelamento de uma rede de informantes no Líbano na semana passada. E, para a surpresa dos libaneses, formada por cidadãos do país, das mais diferentes religiões, incluindo xiitas, trabalhando para o Mossad em troca de dinheiro – o serviço secreto de Israel não confirma nem desmente o envolvimento destas pessoas em espionagem.

Havia até generais da reserva e técnicos de uma companhia telefônica. Vinte já foram acusados e três condenados à morte.

As pessoas costumam imaginar que os espiões e informantes no mundo árabe são israelenses que se camuflam de cidadãos nacionais, como no passado, na época de Eli Cohen. Símbolo de uma outra era, o espião israelense se tornou um herói em seu país ao conseguir ocupar o posto de conselheiro-chefe do Ministério da Defesa da Síria, principal inimigo de Israel. Ele acabou sendo desmascarado e executado pelos sírios.

Israel continua a ter os espiões mais temidos – e respeitados – do mundo, sobretudo em países árabes. Mas a inteligência israelense mudou de estratégia nas últimas décadas: em vez dos agentes infiltrados, agora aposta-se em informantes locais.

Na Cisjordânia e na Faixa de Gaza são usados palestinos, enquanto no Líbano, libaneses. A maioria trabalha em troca de dinheiro. A ação israelense que matou o xeque Ahmed Yassin, líder do Hamas, em 2004, é creditada a informações fornecida por um espião palestino dentro do grupo islâmico.

Apesar de as informações serem dadas por nacionais, as megaoperações ainda são levadas adiante por agentes israelenses do Mossad. Algumas delas, porém, começaram a enfrentar dificuldades com o avanço tecnológico nos países árabes, que coloca obstáculo nas ações.

Em janeiro, agentes do serviço secreto israelense mataram um líder do Hamas em um hotel de Dubai, mas acabaram identificados. Scott Stewart, da consultoria de risco político Stratfor, explica que “dificuldade para a falsificação de passaportes, com o uso de chips e outros mecanismos modernos, afetou os serviços de inteligência, que são os melhores falsificadores. Por isso, vemos agências como o Mossad tentando clonar passaportes que possuem o mesmo nome e número do original”. A técnica, diz Stewart, acabou permitindo que agentes da operação de Dubai tivessem suas fotos estampadas em jornais de todo o mundo.

Apesar do glamour envolvendo o Mossad, os israelenses não são os únicos a espionar na região. Em Damasco, membros do serviço de inteligência sírio circulam pelos lobbies dos principais hotéis e seguem jornalistas pelas ruas da capital síria. Durante a ocupação síria do Líbano, encerrada em 2005, estrangeiros muitas vezes precisavam mostrar os passaportes para agentes sírios no aeroporto de Beirute.

O Hezbollah também montou uma rede de espionagem que atua em países árabes. O Egito prendeu 26 agentes da organização libanesa, aliada do Irã, que operavam no Cairo e na Península do Sinai.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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