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De Beirute a Jerusalém – Hezbollah, Israel, a morte de Hariri e o Poderoso Chefão no Líbano

gustavochacra

10 de agosto de 2010 | 09h01

Quase todos os dias nos meus tempos em Beirute, tinha que passar diante de um placar gigante que marcava o número de dias desde a morte de Rafik Hariri sem que houvesse sido encontrado um culpado.

Apenas para resumir, Hariri foi o premiê do Líbano por quase todo o período entre o fim da Guerra Civil (1990) até 2004, quando a Síria dominava a política libanesa e ocupava militarmente o país. Naquele ano, renunciou ao cargo e partiu para a oposição contra Damasco. Em fevereiro de 2005, foi morto em mega atentado.

Seu filho, Saad Hariri, acusava a Síria pela morte – o regime de Bashar al Assad sempre negou. Sua coalizão, denominada 14 de Março, chegou ao poder. Majoritariamente sunita, tinha aliados cristãos e druzos. Na oposição, ficou o Hezbollah, seus aliados xiitas da Amal e os seguidores do líder cristão Michel Aoun.

Nos últimos cinco anos, o Líbano passou por uma guerra entre Israel e o Hezbollah e quase viu a explosão de um novo conflito civil entre a organização xiita e os aliados de Hariri em 2008. A situação começou a se acalmar na eleição do ano passado, quando a 14 de Março venceu e, com Hariri de premiê, formou um governo de união nacional.

O premiê, no último ano, se aproximou da Síria. Apesar de manter a rivalidade com Hezbollah, preferiu amenizar o tom nas declarações contra a organização xiita. O xeque Hassan Nasrallah também optou por um diálogo conciliador.

Acusação contra Israel

Dias atrás, Nasrallah afirmou que um tribunal da ONU criado especialmente para investigar o atentado irá indiciar integrantes do Hezbollah. Segundo ele, que considera o tribunal enviesado e dominado pelos EUA e Israel, a informação foi passada a ele por Saad Hariri.

Negando envolvimento, Nasrallah fez um pronunciamento acusando Israel pelo assassinato do premiê libanês Rafik Hariri em 2005. O chefe do grupo considerado terrorista pelos Estados Unidos apresentou supostas provas que incluíam alguns vídeos e áudio que não deixavam clara a ligação dos israelenses com o atentado.

Segundo Nasrallah, o objetivo de Israel seria matar Hariri para causar instabilidade no Líbano e forçar os sírios a se retirarem. Para aumentar as divisões sectárias, acrescentou, os israelenses pretendiam assassinar o presidente do Parlamento libanês, Nabi Berri, do grupo AMAL, também xiita e aliado do Hezbollah, mas teriam fracassado.

Israel não comentou a acusação de Nasrallah, classificado como terrorista pelos israelenses. O tribunal da ONU nunca acusou  e descarta o envolvimento de Israel no atentado. Saad Hariri, nestes cinco anos, tampouco levantou a hipótese de os israelenses terem matado seu pai.

Analistas diziam ontem em Beirute que a iniciativa de Nasrallah visa reduzir o impacto da acusação que será feita pelo Tribunal da ONU, baseada em cinco anos de investigação. O temor é de que haja uma nova guerra civil no Líbano, envolvendo xiitas contra sunitas – os cristão se dividiriam entre os dois lados.

A solução

Na minha opinião, é a solução Poderoso Chefão. O Líbano e as forças externas que atuam no país se dividem em facções que se enfrentam ou se aliam de acordo com a conveniência. Michel Aoun ficou 15 anos no exílio por sua oposição à Síria e ao armamento do Hezbollah. Hoje é aliado dos dois. Samir Gaegea, outro líder cristão, ficou mais de uma década no calabouço durante a administração de Rafik Hariri. Solto em 2005, se aliou justamente a Saad Hariri. Aliás, o atual premiê não vê mais problemas em assinar acordos com o Assad depois de acusá-lo de assassinar seu pai.

Apenas a oposição a Israel une os libaneses publicamente – privadamente e também em segredo muitos mantêm acordos e alianças com os israelenses. Sabendo da possibilidade de um conflito quando a ONU anunciar que o Hezbollah foi responsável, decidiram fingir que foi Israel que matou Hariri.

Eu não tenho idéia de quem são os assassinos. Nunca ninguém descobriu quem são os autores dos ataques em Beirute. Ainda não vi as conclusões da ONU. Acho apenas que, se o Hezbollah diz ter tantas provas contra Israel, deveria apresentá-las em um tribunal internacional ou mesmo na Justiça libanesa. Por que não faz isso?

Sei que o post hoje foi grande. Mas o assunto exige contexto e não apenas três ou quatro parágrafos. Também percebi que muitos leitores não demonstram interesse pelo Egito, apesar de ser o maios e mais importante país do mundo árabe. Ontem, não pude responder aos comentários porque tenho que cobrir o jogo do Brasil contra os Estados Unidos aqui em Nova York.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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