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De Beirute a Jerusalém – Como receber a notícia de que seu filho morreu na guerra de Israel contra o Hezbollah

gustavochacra

22 de setembro de 2010 | 08h23

De Beirute a Jerusalém, de Washington a Teerã, cresce a especulação sobre mais uma guerra de Israel contra o Hezbollah, como se fosse uma Olimpíada que acontece a cada quatro anos. Esquecem dos resultados do último conflito, seja no macro ou no micro. Por macro falo em conquistas de qualquer um dos lados. Por micro, digo as histórias de cada uma das famílias que perderam seus parentes e suas casas.

A revista New Yorker desta semana traz como reportagem principal o perfil de David Grossman, um dos maiores escritores israelenses e possível vencedor do Nobel de Literatura nos próximos anos – não duvidem que o prêmio já venha em 2010. No seu mais recente livro, “To the End of the Land”, ele conta história de uma mãe que vaga pelas terras de Israel para não receber a notícia da morte de seu filho que está em uma operação especial.

A idéia do livro veio antes de uma tragédia quase idêntica ocorrer a Grossman. Nos últimos dias da Guerra do Líbano (2006), ao lado de outros escritores, ele fez um apelo para que Israel interrompesse as suas ações no território libanês e chegasse a uma trégua com o Hezbollah. Neste dia, conta a revista, ele não mencionou que o seu filho estava atuando nas forças israelenses.

Na noite seguinte, uma sexta-feira (shabat) Uri, o filho, telefonou para a casa empolgado com a possibilidade de um cessar-fogo. Disse à irmã mais nova que estaria de volta a Jerusalém para o jantar do shabat na semana seguinte. Pouco mais de 24 horas depois, às 2h40 do domingo, a campainha tocou na casa de Grossman. Eram autoridades israelenses. “Quando Grossman foi atender a porta”, ele sabia que sua vida havia acabado, diz a revista.

“Uri havia sido morto no sábado à noite, com o resto de seu grupo, quando o seu tanque foi bombardeado por um míssil do Hezbollah na vila libanesa de Hirbet K’seif. A guerra estava nas últimas horas. O cessar-fogo foi implementado na segunda-feira. Ele estava a duas semanas de completar 21 anos e a três meses de encerrar o seu serviço militar. Seus planos previam dar uma volta ao mundo e depois estudar para ser ator”, descreve a New Yorker.

No Líbano, também há diversas histórias parecidas, assim como em Gaza, onde um médico palestino perdeu todas as suas filhas em um disparo equivocado de Israel também horas antes de um cessar-fogo. Guerra é a assim. Quando escutamos o número de mortos,  temos que contabilizar cada uma das histórias como a de Uri, que nunca mais pôde participar de um jantar do shabat.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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