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De Beirute a NY, sempre torcerei pelo PALMEIRAS

gustavochacra

19 de novembro de 2012 | 14h13

Meu texto de hoje sobre o conflito Israel-Hamas está aqui

Nasci em maio de 1976. Três meses depois, o Palmeiras seria campeão paulista. Não sei exatamente quando, mas imagino que entre 1979 e 80, passei a dizer com orgulho “sou palmeirense”. Amava a camisa verde do meu time. As primeiras palavras que li foram nas edições de esportes do Jornal da Tarde e também na Gazeta Esportiva. Foi na ficha técnica que descobri que Polozi, o zagueiro, era com “L”, e não com “R”, como dizia o meu irmão que falava como o Cebolinha.

Meu irmão mais velho era são-paulino, o do meio não torcia e meu pai nunca gostou de futebol. Mas, quando era São Paulo e Palmeiras, pegava a Veja para ficar lendo na arquibancada enquanto eu e meu irmão torcíamos para os nossos times. No carro, voltando da praia, também implorava para ouvir um pouco da narração do José Silvério.

Passaram os anos, e eu me transformei no palmeirense chato da classe. Sabia a escalação em decor. Mas sempre ouvia a frase – “Cala a boca que você nunca viu o seu time ser campeão”. Nunca mesmo. Era o sonho de criança ver um dia o Palmeiras carregar a taça. Em 1986, depois da semifinal contra o Corinthians, quando o Mirandinha marcou aos 43 do segundo tempo e de novo na prorrogação, além de um gol olímpico do Éder, para consolidar a vitória, tive certeza de que viria o título.

Os palmeirenses da minha geração sabem, porém, que o Dênis falhou, o Tato fez o gol para a Inter de Limeira e perdemos a final. Pensei que humilhação maior não pudesse haver. Mas veio em 1989, ao perdermos por 3 a 0 para o Bragantino em mais um dia de “Porcus Tristes”, como diziam corintianos e são-paulinos. Era duro ouvir na arquibancada a contagem dos anos sem o Palmeiras ser campeão.

Até 1993, quando finalmente conseguimos sair da fila. Em grande estilo, ganhando por 4 a 0 do Corinthians na final. Em 1994, éramos bi-Paulista e bi-Brasileiro. Tivemos o ataque dos cem gols em 1996 e a Libertadores em 1999.

A alegria durou nove anos e fomos para a Segunda Divisão. Voltamos em 2003 E ainda fomos campeões paulistas em 2008. Mas, apesar da Copa do Brasil meses atrás, o Palmeiras tem voltado ao clima dos tempos da fila. Imagino os meninos palmeirenses hoje na escola sofrendo com as gozações dos rivais. Pior, não tem nem o argumento de afirmar que o Corinthians, como na minha época, nunca havia sido campeão brasileiro.

Mas, jovens palmeirenses, lembrem que torcer é ficar ao lado do time mesmo na derrota. O Red Sox, segundo mais popular time de baseball dos Estados Unidos, ficou 86 anos sem ser campeão com as arquibancadas na Fenway Park lotadas nestas nove décadas. Avós nasceram e morreram ser ver o time de Boston levantar a taça. Não há uma pessoa viva com memória do último título do Chicago Cubs, há mais de um século, e mais de 50 mil vão aos jogos do time diariamente (no baseball tem jogo todos os dias) durante a temporada.

Eles torcem porque amam seus times e não mudarão a camisa nunca. Palmeirenses que nasceram nos tempos da fila, como eu, ou da Segunda Divisão, sabem apreciar a derrota e valorizar a vitória. Somos diferentes dos palmeirenses da época da Academia e por este motivo entendo o texto do Clóvis Rossi hoje na Folha. Ele cresceu vendo o Ademir da Guia, não o time na Taça de Prata de 1982. Faz sentido mudar para o Barcelona. O mesmo se aplica aos palmeirenses da era Parmalat, que nasceram campeões.

Mas nós dos tempos da fila e os de agora, na Segunda divisão, amamos o Palmeiras pelo que o time é. Precisa melhorar, mas não o abandonaremos jamais. Vamos criticar e reerguer o Palmeiras, mas jamais jogar a camisa no lixo. Valeu a pena ficar 17 anos sem ver o alviverde campeão para ouvir o José Silvério soltando a voz dele no pênalty cobrado pelo Evair em 1993 – “Palmeiras Campeão Paulista de Futebol”.

Moro há mais de sete anos fora. É difícil ficar longe e claro que acompanho menos o Palmeiras. Mas sempre, em Beirute, Buenos Aires, Damasco ou Nova York, dentro do estádio do Yankees, terei na memória que sou acima de tudo palmeirense. Jamais trocarei meu time pelo Barcelona.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios