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De Beirute à América – Uma história de imigrantes libaneses; conte a sua também

gustavochacra

27 de março de 2010 | 00h03

Meu bisavô libanês desembarcou em Ellis Island, Nova York, no dia 25 de novembro de 1898. Hanna (João) Chacra tinha 20 anos de idade, era casado e atravessou o Atlântico no navio La Normandie, vindo de Havre (França). Minha bisavó estava junto. Sua etnia, segundo os registros da imigração americana disponíveis na internet, era síria, e o seu último lugar de residência foi Beirute, atualmente no Líbano.

Em Nova York, Hanna teria se instalado na região conhecida na época como Little Syria, próxima a Washington Street, no West Village, onde morei até meses atrás. Neste tempo, sírios e libaneses eram chamados de “sírios” apenas e não havia a designação “árabe”. Em alguns casos, especialmente no Brasil e na Argentina, eram classificados como turcos por causa do passaporte otomano. Os andares mais elevados dos prédios em Nova York, no início do século, custavam menos porque não havia elevador. Enquanto a meu bisavô tentava a vida como mascate, minha bisavó vendia maças. Depois de um tempo, nasceu meu tio-avô, Mansour Chacra.

Com o dinheiro conseguido em alguns anos nos Estados Unidos, Hanna, com a mulher e o filho, voltou para Rachaya, no Líbano. Meu avô, Adib, nasceu, assim como a minha tia-avó Badia. Após alguns anos, Hanna percebeu que o Líbano não traria futuro e decidiu imigrar para Santos sozinho, deixando a família para trás até ter condições de levá-los ao seu encontro no Brasil.

Minha bisavó não aguentou esperar, pegou os filhos, incluindo o meu avô, e embarcou em um navio para encontrar o marido no Brasil. Na costa da África, ficou doente e morreu. Seu corpo foi deixado em Dacar, no Senegal. Meu tio-avô, Mansour, já adolescente, teve que cuidar de meu avô Adib e da irmã Badia até desembarcarem em Santos. Semanas depois, eles se encontrariam com o meu bisavô e nunca mais retornariam para o Líbano.

A história dele é similar a de milhares de libaneses que deram origem a 7 milhões de descentes no Brasil e o dobro disso nas Américas. Santiago Nassar, que é o morto da Crônica de Uma Morte Anunciada, assim como o comerciante sírio Moisés, de “El Coronel no tiene quien le escriba”, e Shakira Mebarak, estrela pop latino-americana, são personagens reais e  imaginários da colônia sírio-libanesa na costa caribenha da Colômbia, onde, em cidades como Barranquilla e Cartagena, se come quibe e doces árabes nas suas esquinas. Carlos Menem, sírio, foi presidente da Argentina. Jamil Mawad, do Equador. No México, Carlos Slim se converteu no homem mais rico do mundo. Também libanês, assim como o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o eterno candidato à Presidência dos EUA, Ralph Nader. Na Amazônia, há o escritor Milton Hatoun. Outro mestre das letras foi Raduan Nassar e o libanês-americano Gibran Khalil Gibran. O Adib Jatene veio do Acre. Ambos imigrantes libaneses, como o Espiridião Amin, o Tasso Jereissati e o Paulo Maluf.

Por favor, peço aos leitores que são filhos e netos de imigrantes, podendo ser libaneses, italianos, japoneses, judeus, alemães, portugueses, africanos ou de qualquer origem, que relatem as suas histórias.

Já retornei a Nova York, vindo de Bogotá. Este post ficará no ar até pelo menos a segunda de manhã

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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