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De Beirute ao Cairo – Nem tudo o que acontece no mundo árabe tem a ver com Israel

gustavochacra

15 de fevereiro de 2011 | 11h29

No twitter @gugachacra

Estou no Brasil para uns dias de férias do jornal. Mas seguirei normalmente com o blog. E, neste domingo à tarde, participarei de um dos tradicionais encontros dos leitores. Amanha, publicarei data e local aqui em São Paulo. Também queria pedir desculpas por possíveis erros neste post porque estou escrevendo pelo iPad e ele às vezes troca palavras por conta própria

Anos atrás, estava em um carro com três membros das Forças Libanesas (uma milícia radicial cristã do Líbano) e um amigo meu americano judeu da Universidade Columbia que estava passando um ano acadêmico na Universidade Americana de Beirute. Foi dos momentos mais surreais da minha vida e até hoje me ajudam a entender o Oriente Médio. 

Em determinado momento da conversa, os três libaneses, como é comum em Beirute, começaram a dizer que o Líbano era um país especial. “Apesar de pequeno, sempre somos manchetes. Ministros, chefes de Estado, todos têm que visitar Beirute”, diziam. Até que meu amigo americano não aguentou tanto esnobismo e disse – “Se vocês não tivessem fronteira com Israel, estariam mais esquecidos do que a Argélia”.

Exatamente, “mais esquecidos para a Argélia”. País que nos anos 1950 e 1960 foi símbolo da esquerda pela luta de Ahmed Ben Bella pela independência da França. Mas que depois deixou de ser lembrado. Como a Tunísia, da qual nunca falamos e onde explodiu a primavera árabe. Ou dos problemas dos curdos, sempre relegados a um segundo plano. A questão nunca resolvida do Chipre, onde tive o desprazer de visitar a única capital dividida por um muro no mundo.

Desta vez, o levante que mais chamou a atenção foi o do Egito. E deixo algumas perguntas para vocês. Nós falamos mais do Egito por ser vizinho de Israel, por ser o maior país árabe ou as duas coisas? Falamos do Líbano apenas por ter fronteira com os israelenses, por causa da diáspora libanesa ou as duas coisas? Começamos a falar mais do Irã por ser um dos países que mais desrespeita os direitos humanos ou por que eles ameaçam Israel?

Um dos problemas do Oriente Médio é justamente este, o de achar que tudo gira em torno de Israel. As divisões libanesas não são culpa de Israel. Tampouco a ditadura do Egito. São questões internas destes países. Isso ficou claro nos protestos no Cairo, onde a questão Israel foi praticamente ignorada. Os israelenses têm problemas sim com os palestinos e sírios, mas o que eles têm a ver com o Yemen e a Tunísia? 

E, no Oriente Médio, tampouco tudo envolve o islamismo. Começando pelos que questionam se seria permitido em um governo da Irmandade construir catedrais católicas no Cairo, onde já existem dezenas de igrejas coptas. Pessoas que escrevem de Oriente Médio sem ter visitado a região e sem saber que os cristãos egípcios não são católicos. Falam das sinagogas, mas esquecem ou não sabem que quem expulsou os judeus do Cairo foram os militares laicos de Gamal Abdel Nasser. Nada a ver com a Irmandade. E que quem perseguia os cristãos coptas agora eram membros do regime de Mubarak. A Irmandade, ao contrário, mantém boas relações com os coptas. Para completar, não existe “tradição árabe” de cortar as mãos. E, mais complicado, vi textos de pessoas que ainda igualam árabes e muçulmanos. A maioria absoluta dos muçulmanos do mundo não é árabe. E árabes podem ser cristãos, muçulmanos, judeus, ateus e até budistas.

 Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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