As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De Bloomberg a Sarah Palin – A polêmica da “mesquita” em Nova York

gustavochacra

22 de julho de 2010 | 09h14

Nova York é como Michael Bloomberg. Não tem nada a ver com Sarah Palin. O primeiro defende a construção de um centro cultural e esportivo islâmico, nos moldes da Associação Cristã de Moços (ACM ou YMCA), nos arredores de onde antes estava o World Trade Center. Também existe uma organização similar judaica na cidade. Seja controlada por judeus, cristãos ou muçulmanos, todos estes centros são abertos a todas as religiões e também a ateus. Inclusive, nas piscinas, mulheres poderão nadar normalmente com o maiô que preferir.

Isso é Nova York, uma metrópole onde uma mulher pode usar o seu hijab sem ser incomodada em um bairro judeu ortodoxo. Onde um judeu ortodoxo pode circular livremente e sem medo por uma vizinhança paquistanesa. E onde o prefeito, judeu, escolhe como uma de suas principais assessoras uma palestina-muçulmana nascida no Brasil, chamada Fátima Shama.

Sarah Palin não é Nova York. Ela acha que o centro islâmico, que ela reduz apenas a uma “mesquita”, servirá como provocação para as vítimas dos atentados de 11 de Setembro. Isto é, de uma forma racista, acusa uma religião pelos atentados, quando na verdade os ataques foram realizados por terroristas com uma visão distorcida do islã. E também ignora o propósito cultural e esportivo do centro, que nada mais é que uma ACM.

Bloomberg cresceu em Nova York, como uma minoria na época em que os judeus sofriam o preconceito dos brancos protestantes, conhecidos como WASPs. Ainda hoje, jovens de Nova York crescem em meio a amigos de todas as partes do mundo, filho de imigrantes. E cada vez com menos preconceito.

Ontem, ao cobrir a inauguração de um comitê de Marina Silva no Brooklyn, uma mulher se sentou ao meu lado em um café, onde escrevia a matéria. Perguntei a ela de onde era a maioria das pessoas do bairro. “Muitos russos e ucranianos, em geral judeus. Também há uma grande população muçulmana turca e do Paquistão. Nos últimos meses, também chegaram haitianos”, afirmou a senhora que dá aulas de inglês para estrangeiros nesta região novaiorquina perto da praia. “E todos vivem bem?”, perguntei. “Sim”, respondeu.

Nova York é isso e a associação islâmica, voltada para todas as religiões, será apenas mais uma nesta cidade multicultural e multireligiosa. Vivo em Nova York porque aqui fiz amigos israelenses e palestinos, iranianos e americanos. E onde todos se respeitam e admiram a diversidade.

Como sempre digo, a Universidade Columbia, de todas as Ivy Leagues, que é a liga das mais tradicionais universidades americanas, é a que mais alunos judeus possui, assim como no seu conselho de administração. E a Columbia também é a universidade onde Edward Said, um palestino crítico de Israel, deu aulas ao longo de quase toda a sua carreira acadêmica. Nova York é isso, Nova York é Bloomberg, não Sarah Palin. Novaiorquinos vêem a mesquita como um lugar frequentado pelo amigo da escola, assim como uma igreja anglicana, católica ou uma sinagoga. Tenham certeza, muitos dos alunos da escola de esportes do centro islâmico serão judeus, que, por sinal, já adoram nadar na ACM daqui e também na de Jerusalém, diante do King David.

Aliás, ontem recebi o convite de um rabino brasileiro para participar do jantar de Shabat em uma congregação de judeus ortodoxos latino-americanos. Isso é Nova York, não a cidade intolerante que deseja Sarah Palin.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.