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De Brasília a NY – Amorim diz que Obama errou ao não apoiar Brasil no Conselho de Segurança

gustavochacra

16 de maio de 2011 | 19h08

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O ex-chanceler Celso Amorim criticou o governo americano por não apoiar a inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Durante palestra e entrevista em Nova York, ele ainda acrescentou que os Estados Unidos não estão preparados para o crescimento de uma potência com alcance global na América Latina.

O presidente Barack “Obama apoiou a entrada da Índia (no CS) quando visitou o país no ano passado, mas não fez o mesmo quando esteve no Brasil. Qual a diferença entre os dois países? São duas democracias multiculturais. A Índia tem mais habitantes, mas temos um território mais extenso e um PIB maior. A diferença é que a Índia tem arma nuclear, e o Brasil, não. Foi um péssimo sinal para o resto do mundo”, disse Amorim, que falou que esta era uma opinião pessoal.

Na verdade, segundo analistas, os dois casos não estão relacionados. Os EUA apoiaram a Índia como uma forma de contrabalancear o poder geopolítico da China na região e também para servir de  alerta ao Paquistão, que já vinha observando uma deterioração nas relações com Washington. O Brasil, por sua vez, adotou uma posição contrária à dos Estados Unidos na votação de uma resolução contra o Irã no ano passado.

Segundo o ex-chanceler, “os Estados Unidos não estão acostumados com uma potência com alcance global na região (América), como o Brasil”. Questionado sobre qual conselho ele daria a Obama nas relações bilaterais, Amorim respondeu que “os Estados Unidos precisam ter uma política especifica para o Brasil, e não incluir o país no restante da América Latina”.

Os americanos realmente possuem políticas específicas para alguns países, como o México e a China. O Brasil, na avaliação de Washington, ainda pode ser tratado dentro do âmbito da América Latina.

Israel e Palestina – Ao comentar outras questões internacionais, Amorim afirmou ser positiva a aliança entre o Fatah e o Hamas nos territórios palestinos. Na avaliação dele, um país de maioria islâmica, como a Indonésia e a Turquia, deveria ser incluído nas negociações de paz no Oriente Médio. O chanceler também defendeu pessoas com idéias novas no diálogo. “Precisamos de pessoas inexperientes, de novos países, do Brasil, da África do Sul”, afirmou. Amorim não quis se aprofundar nos choques de ontem nas fronteiras de Israel.

Irã – Perguntei ao ex-ministro se não houve ver mudanças nas relações do Brasil com o Irã depois que Dilma Rousseff assumiu a Presidência. A atual presidente adotou uma postura mais crítica em relação ao desrespeito dos direitos humanos no Irã. “A Dilma é mais charmosa do que Lula”, brincou. Em seguida, disse que, “nas linhas gerais, é a mesma política. Mas o mundo muda e precisamos lidar com os problemas de forma diferente.”

Honduras – A próxima pergunta minha foi sobre Honduras. Questionei o ex-chanceler sobre o que ele achava da solução final em Honduras, com um presidente eleito (Pepe Lobo), o retorno de Manuel Zelaya e a volta do país para a OEA. “Este foi o acordo que sempre propusemos”, disse Amorim. “Sempre colocamos como precondição o retorno de Zelaya”, acrescentou.

Na época, o Brasil não reconheceu a eleição hondurenha e exigia o retorno de Zelaya ao poder, não apenas ao país, onde o ex-presidente chegou a ficar por meses dentro da embaixada brasileira em Tegucigalpa. Os dois países cortaram relações.

Síria – Por último, perguntei a Amorim se ele estava decepcionado com Bashar al Assad. O ex-ministro lembrou na resposta que o regime sírio matou mais pessoas em três meses do que o Brasil durante todo o regime militar. “Todas as vezes que fui a Damasco, lidei com questões internacionais. Também atuamos na questão do Golã a pedido dos dois lados (Israel e Síria). Tive a impressão, como John Kerry (eu citei o senador americano na pergunta) que Assad seria um moderado e podia ajudar na questão libanesa. Parecia pragmático. Mas nunca falamos de questões domésticas sírias. Foi chocante ver as mortes.

Para completar, Amorim, que passou um mês na Universidade Harvard, aconselhou o FMI a indicar uma pessoa de um país emergente para liderar a instituição, caso Dominique Strauss-Khan seja removido definitivamente do cargo. “É preciso haver um fim do monopólio dos EUA e Europa no FMI e no Banco Mundial”, disse.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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