As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De Brasília a Teerã – Desrespeito a diretos humanos piorou no Irã no último ano, diz iraniano-brasileiro

gustavochacra

14 de maio de 2010 | 11h31

Antes da visita do presidente Lula ao Irã, decidi entrevistar o cineasta de origem iraniana Flavio Rassekh. Jovem, fluente em português e persa, este ativista dos direitos humanos talvez seja um dos principais especialistas em Irã no Brasil. Em vez de conversar sobre a questão nuclear, preferi me focar nos direitos humanos. Abaixo, seguem as respostas dele.

1. A situação dos direitos humanos piorou no Irã no último ano?

Se for pra responder em uma só palavra, diria que sim, piorou muito. De acordo com Mahmoud Amiry-Moghaddam, um dos maiores especialistas em Direitos Humanos e responsável pelo Iran Human Rights ( http://iranhr.net/ ), “os iranianos estão passando por um dos períodos mais obscuros de sua história”, segundo o seu último relatório, confirmado pelo Iran Press Watch, International Federation for Human Rights, Anistia Internacional e Human Rights Watch as execuções sumarias por pena de morte tiveram um crescimento extraordinário superando todos as outras estatísticas dos últimos dez anos. A prêmio Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi, lembrou em uma entrevista ontem que, em 31 anos de república islâmica, o Irã foi condenada 25 vezes por violações de direitos humanos. As violações parecem aumentar a cada ano, na sua gravidade e escopo.

No encontro do Universal Periodic Review, organizado pelo conselho de diretos humanos das Nações Unidas, o Irã foi acusado de prender mais de quatro mil dissidentes, promover torturas diárias e estupros de homens e mulheres dentro das prisões.

Um outro ponto importante foi a contaminação do sistema judiciário iraniano. Julgamentos conhecidos como “show trials” passaram a ser a norma dentro do sistema iraniano. Em algumas ocasiões, até 100 pessoas foram julgadas ao mesmo tempo em uma só sala sendo acompanhadas por redes de TV que mostravam “confissões”, conseguidas através de métodos coercitivos, obtidas muito antes do princípio dos julgamentos.

Membros da minoria curda, jornalistas, dissidentes políticos e lideres da fé bahá’í foram submetidos a esse tipo de julgamento. Recebi a alguns dias relatos assustadores da situação dos  presos bahá’ís na famigerada prisão de Evin. As celas não tem ar fresco ou luz durante o dia, os presos dormem no chão e lhes é permitido apenas duas horas por semana fora de seus cubículos.

2.  O movimento opositor perdeu força?

O governo iraniano conseguiu através da violência acabar com os órgãos de imprensa do pais. De acordo com o Repórteres Sem Fronteiras da França, o Irã se transformou na “maior prisão de jornalistas do mundo” ( http://en.rsf.org/iran ), um em cada 3 jornalistas presos no mundo hoje está no Irã. O controle dos meios de comunicação associado ao acesso irrestrito as antigas centrais telefônicas da Nokia e Siemens permitiram ao governo monitorar toda a informação que circula no Irã.

Eu não teria condições de dizer, daqui do Brasil, como estaria o movimento de oposição. O fato é que não acredito que essa disputa política seja a solução para os problemas daquele país. Quem poderia responder melhor essa pergunta seriam os lideres da oposição. Pra quem trabalha com direitos humanos a solução passa por um outro tipo de transformação. Não me meto em política partidária por princípio e por convicção.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –
Ariel Palacios (Buenos Aires) – http://blogs.estadao.com.br/ariel-palaci… –
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-cam… –
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trev… –
e Adriana Carranca (pelo mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carr…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.