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De Buenos Aires a Jerusalém – A queda do River e a Flotilha de Gaza

gustavochacra

27 de junho de 2011 | 03h23

O River Plate caiu para a Segunda Divisão da Argentina. Foi o nakba do equivalente do São Paulo do futebol argentino. A maior tragédia em 110 anos de história. Sei bem a sensação porque vi meu Palmeiras ser defenestrado de forma humilhante da Séria A do Brasileiro em 2002. Dá vergonha, a mesma de quando vi meu time perder para Inter de Limeira na final de 1986, naquela jogada desastrada do Dênis que o Tato fez o segundo gol. Também tem o inesquecível 3 a 0 para o Bragantino em 1989, no feriado de “porcos tristes”, como diziam. Cresci escutando o “Cala  Boca Palemeirense, você nunca viu o seu time ser campeão”. Nasci em 1976, quando começou a fila suspensa apenas nos anos da Parmalat.

Nestas horas de sofrimento, os adversários celebram o seu luto. Hoje, os torcedores do Boca, do Racing e do Independiente estão comemorando. Morei em Buenos Aires. Eles amam muito mais o futebol do que nós brasileiros Mas o que estes torcedores rivais não percebem é que a queda do River prejudica a todos. O nakba da equipe de Nuñez tirará a chance de assistirmos a um Boca-River no próximo campeonato. Menos dinheiro, menos emoção. No Apertura, os torcedores do Boca não terão a chance de ganhar do River. Vimos como foi nas quedas do Palmeiras e do Corinthians.

E tomo aqui a liberdade de fazer uma anologia com o Oriente Médio, onde o Boca-River seria Israel-Palestina. Muitos palestinos celebram quando Israel se dá mal em alguma iniciativa diplomática ou militar. Muitos israelenses celebram quando os palestinos se dão mal internacionalmente. O que não percebem é que, como no Boca-River, os dois acabam derrotados com o fracasso do outro. Eles seriam vencedores se os dois estivessem na Primeira Divisão, vivendo em paz.

Nesta semana, teremos o segundo turno da Flotilha. Supostos defensores dos palestinos querem que Israel mate ativistas para poder dizer que os israelenses são maus. Supostos defensores de Israel querem que os ativistas tenham armas para poder dizer que os palestinos são maus. São como torcedores do Boca torcendo para o River cair, e não para a equipe da Bombonera ser campeã. Torce pelo desastre do outro, e não pela vitória de si próprio. São anti-Israel e anti-Palestina, não pró-Israel ou pró-Palestina.

No Clausura do Mediterrâneo Oriental, o Líbano, a Síria, Israel, Palestinos e Egito estão na Segundona. Apenas quando houver paz, todos subirão para a Séria A, como a Europa depois da Segunda Guerra. Israel será ganhador quando a Palestina for ganhadora, e vice-versa. 

Voltando ao futebol, deixo aqui uma pergunta, que fiz no blog do Ariel Palacios – Por que o River Plate não se chama River Silver, se esta seria a tradução mais correta para Rio da Prata? A melhor resposta leva uma camisa do Yankees, que nunca me decepciona. Neste fim de semana, teremos subway series contra o Mets

Obs. Como odeio São Paulo e Corinthians, deixo aberto o espaço para os alvinegros comentarem os 5 a 0 de ontem contra o tricolor

Obs2. Meu pai discordou da minha comparação entre o Oriente Médio e o River

Obs3. Sigo de férias do jornal na Califórnia

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios 

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