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De Cachoeiro a Nova York – Roberto Carlos e o Brasil no exterior

gustavochacra

17 de abril de 2010 | 11h05

UPDATE – Eu fui ontem novamente ao show de Roberto Carlos. Seus empresários optaram por não contar ao cantor sobre a morte de sua mãe, três horas antes do início do espetáculo. O rei, inclusive, antes de cantar Lady Laura, em homenagem à sua mãe, disse que ela estava bem, recuperada de uma doença. No fim do show, depois de “Jesus Cristo” e de distribuir dezenas de rosas às fãs, ele saiu imaginando que retornaria segundos mais tarde para o bis. Em vez disso, o maestro Eduardo Lage pegou microfone e informou para a plateia que, naquele momento, Roberto Carlos estava sendo informado da morte da mãe. Isto é, optaram por não avisá-lo. Por que? Não sei, mas o Radio City cobraria uma multa cara pelo cancelamento. De qualquer forma, pergunto aos leitores, não seria o caso de falar a verdade para o cantor?

Maradona, em sua autobiografia, assume ter pedido a sua mulher em casamento ao escutar uma música de Roberto Carlos em um baile na sua juventude ainda em Buenos Aires. Como o gênio argentino, milhares de pessoas ao redor da América Latina se apaixonaram ao escutar o “Emoções” em discos, fitas, festas, boates e shows.

Na véspera de seu aniversário, Roberto Carlos subiu ao palco para um show ontem no Radio City, em Nova York. De branco, cantou parabéns junto com a platéia e deu o primeiro pedaço do bolo para a sua secretária Carminha. Colocou a mão no próprio peito, cerrou os punhos, levantou o braço e lançou o “coração” para a platéia. Seus fãs na tradicional casa de espetáculos de Manhattan eram em sua maioria de países de vizinhos como a Colômbia e a Argentina, que disputavam uma das rosas lançadas pelo cantor.

Daqui dois meses, será a vez de João Gilberto. Na semana passada, Caetano Veloso também esteve em Nova York. O público era um pouco distinto, com mais americanos. Além dos shows, escutei ontem na academia uma canção da Mariana Aidar, uma das estrelas da nova geração de cantoras brasileiras, e, nesta manhã, uma da consagrada Marisa Monte no café do Lincoln Center. Eles representam o soft power do Brasil, nossa força cultural, e não militar e econômica.

A China, a Rússia e a Índia possuem culturas bem mais antigas do que a brasileira. Porém não existem muitos ídolos destes países ao redor do mundo que estejam vivos atualmente. Difícil citar um músico indiano ou chinês. Goste ou não de seus livros, Paulo Coelho é certamente o brasileiro mais conhecido em todos os tempos que não seja jogador de futebol. Vi seus livros à venda em Beirute, Capetown e Washington. Segundo reportagem da New Yorker de alguns anos atrás, sua recepção em Teerã ficou atrás apenas da do aiatolá Khomeini ao retornar do exílio.

Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil são apreciados da Suécia ao México, do Japão a Israel. Nós também temos a melhor seleção do esporte mais popular do mundo. São raros os povos – talvez apenas os argentinos com Messi e Maradona – que sabem como as portas se abrem ao dizermos nossa nacionalidade. “Você não sabe como eu te invejo por ser brasileiro”, disse certa vez um amigo iraniano-americano aqui de Nova York.

Podemos não ser a maior economia dos BRICs, como a China. Tampouco a democracia mais populosa do mundo, como a Índia. Muito menos possuímos armas nucleares, como a Rússia. Mas certamente o Brasil, dos quatro, é o que possui mais soft power. Ainda assim, estamos longe dos Estados Unidos, que continuam com a maior economia do mundo, uma das democracias mais consolidadas, as Forças Armadas mais poderosas e, acima de tudo, a cultura mais admirada. Qualquer cientista ou acadêmico do mundo sabe que não existe nada como a educação em universidades como Yale e MIT. Ou inovações como as da Apple e do Google. Ídolos em praticamente todas as áreas, do esporte ao cinema, da música à literatura. Roberto Carlos pode ser brasileiro, mas Frank Sinatra era americano.

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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