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De Caracas a Teerã – A burra defesa que Oliver Stone faz de Fidel e Chávez

gustavochacra

13 de julho de 2010 | 09h28

Os Estados Unidos podem ter cometido uma série de erros ao longo de sua história na América do Sul e do Oriente Médio. Diversas vezes, o governo americano defendeu golpistas. Isso não apenas no passado, mas também recentemente ao apoiar a derrubada de Hugo Chávez na Venezuela, em 2002.

O problema é que, ao criticar os EUA, algumas pessoas passam a elogiar figuras como o próprio Chávez e os irmãos Castros, como se eles fossem heróis. É exatamente este raciocínio que tem o diretor Oliver Stone e grande parte da esquerda dos EUA. Em seu documentário South of the Border, o cineasta faz propaganda aberta não apenas de Chávez e dos ditadores cubanos, como também de Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Casal Kirchner e, em menor escala, Lula.

Os vilões são, obviamente, os EUA, o FMI, as “elites” latino-americanas e a imprensa. Na visão ingênua de Stone, estes líderes da América Latina, seguindo o exemplo de Fidel e agora de Chávez, lutam contra os “yankees” parar impor a verdadeira democracia.

O cineasta apenas esquece que Cuba é uma das mais antigas ditaduras do mundo, com prisioneiros políticos, censura à imprensa e ausência quase total de liberdade. Chávez, ainda que através do voto, tenta calar seus opositores e já se perpetua no poder. Não são exemplo de nada. Jogaram a democracia no lixo e enganam apenas figuras como Stone.

No filme, o cineasta usa cenas da Fox News com imbecilidades ditas por seus apresentadores. Realmente, este canal de TV é de um radicalismo conservador assustador. Porém isso não significa que, apenas por eles criticarem Chávez, o venezuelano passa automaticamente a ser uma figura heróica. Não, Chávez não é herói. Se eu vivesse na Venezuela ou em Cuba, não poderia escrever este post.

Esta visão, aliás, também se aplica ao Oriente Médio, onde “inimigo do meu inimigo é o meu amigo”. Muito críticos de Israel passam a defender o Hamas. Os israelenses podem cometer equívocos na região, como a construção de assentamentos na Cisjordânia. Mas isso não significa que um grupo que cometeu dezenas de atentados terroristas como o Hamas deva ser defendido. Ou que um regime como o iraniano possa ser exemplo para alguma coisa.

Os EUA devem ser criticados pelo seu apoio a ditaduras na América Latina e no Oriente Médio ao longo das últimas seis décadas. Porém não há como defender governos que, apenas por serem inimigos dos americanos, desrespeitam a democracia como Cuba, Venezuela e Irã.

Para completar, países que não optaram por uma cartilha mais radical de esquerda atravessam um cenário econômico melhor do que os governados pelos chamados “bolivarianos”. Basta comparar como a Colômbia de Álvaro Uribe avançou com a Venezuela, apesar de não ser rica em petróleo como país de Chávez. Também vale quando observados o Chile e o Brasil nas administrações de Fernando Henrique e Lula, que se desenvolveram bem mais do que os venezuelanos.

Falando em Brasil, Stone, assim como Chávez, mais uma vez coloca os brasileiros dentro do contexto do processo de independência do restante da América do Sul. Nós não tivemos nada a ver com Simon Bolívar e San Martin. A história do Brasil é diferente, mas este assunto fica para outro tópico.

E, se existe o perfeito idiota latino-americano, há também perfeito idiota americano. Oliver Stone, no seu documentário, é um deles.

Trailer do filme South of the Border – http://southoftheborderdoc.com/

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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