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De Casablanca a Aleppo – O fim das cidades árabes cosmopolitas e o aumento da religiosidade

gustavochacra

15 de abril de 2011 | 10h31

no twitter @gugachacra

O aumento da religiosidade do mundo árabe mediterrâneo, adotando hábito tribais das regiões do Golfo Pérsico, começou com o fim das cidades cosmopolitas como Casablanca a Aleppo. Alexandria, com seus gregos, judeus, cristãos coptas, armênios e muçulmanos, com diversos graus de religiosidade, se transformou em uma gigantesca sucessão de prédios de uma nota só. A diversidade desapareceu.

Podem ter erguido uma deslumbrante nova versão da nova Biblioteca de Alexandria. Mas a importância da segunda cidade do Egito está a séculos de distância da que teve quando destruíram a primeira delas. A universidade, ao lado, mesmo algumas décadas atrás, nos anos 1960 e 70, era um bastião de pensamento, onde as mulheres ainda andavam de cabelos soltos. Hoje, quase todas andam de hijab. O mesmo acontece na secular Damasco, onde as raras meninas sem o véu são cristãs. Conversem com sírios de 60, 70 anos e perguntem a eles como eram as faculdades nas suas épocas. Tentem ver fotos.

Quem fala de Aleppo hoje? Nem em manifestações contra Bashar al Assad, esta que já foi uma das mais importantes metrópoles comerciais do mundo aparece. Mais brasileiros devem ter ouvido falar de Dubai do que de Aleppo. Algo quase inacreditável levando em conta a cultura que já foi produzida no segundo maior centro urbano da Síria.

Tunis, que já foi Cartago, hoje não vai além de um entreposto para turistas europeus seguirem para resorts nas praias. Argel, cidade mítica para a esquerda nos anos 1960, pólo cultural quando a Argélia era francesa, hoje sequer é notada por muitas pessoas que observam o mapa. A Argélia parece ser uma nação que desapareceu, que naufragou em importância.

Haifa talvez seja uma versão ainda forte do cosmopolitanismo do Oriente Médio, onde judeus e árabes convivem harmonicamente. Mas Tel Aviv, por sua relevância econômica, jogou a vizinha do norte para um segundo plano. Jaffa diminuiu ao ponto de se transformar em um bairro de Tel Aviv.

Nablus, antes a grande cidade palestina, viu Ramallah roubar seu lugar. Mas sem adicionar o mesmo charme de uma metrópole secular de gerações de palestinos. Hebron, no centro da disputa entre israelenses e palestinos, é tudo menos cosmopolita.

Beirute sobrevive como a última cidade cosmopolita árabe, com a mistura de religiões, as boas universidades, os bancos, a vida noturna. Mas um fenômeno novo começou a ocorrer desde a eclosão da Guerra Civil. Até os anos 1970, imigravam os mais pobres, do Vale do Beqa, do Monte Líbano, do sul. Hoje os libaneses perdem os seus melhores jovens, que se mudam para Dubai, Doha e Abu Dhabi em busca de melhores salários, voltando ao Líbano apenas nos fins de semana.

Lembrem do filme Casablanca para tentar imaginar o que já foi esta cidade marroquina e o que é hoje. Nem nos roteiros turísticos para Marrakesh e Fez a incluem. O fim destas cidades cosmopolitas árabes aconteceu ao mesmo tempo em que cresceu a religiosidade.

Leiam os blogs do Ariel Palacios (Argentina), Adriana Carranca (Afeganistão), Claudia Trevisan (China), Denise Chrispim (Washington) e o Radar Global

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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