De Cité Soleil ao Central Park – 12 horas de Porto Príncipe a Nova York
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De Cité Soleil ao Central Park – 12 horas de Porto Príncipe a Nova York

gustavochacra

20 de janeiro de 2010 | 03h17

Um dia depois de passar pela Cité Soleil pela última vez, já estava no Central Park andando depois de escrever uma matéria para a edição impressa sobre a travessia por terra do Haiti para República Dominicana. Nas fotos, o parque símbolo de Nova York e o bairro mais pobre de Porto Príncipe podem parecer dois lugares completamente distantes no tempo e no espaço, sem nada em comum. Verdade, são bem diferentes mesmo. Mas existem pontos que os aproximam, como veremos adiante.

A favela haitiana nasceu pobre e ficou ainda mais miserável depois do terremoto. Um amontoado de lixo, de corpos, de escombros, de saqueadores e de desabrigados, onde o braço de um morto vale menos do que um pedaço de pau. Afinal, o segundo serve como arma na luta pela sobrevivência, enquanto o primeiro simboliza o incomodo da morte e da tragédia aos olhos dos que escaparam do terremoto por não estarem sob um teto às 16h53 de uma tarde ensolarada de Porto Príncipe, uma cidade litorânea sem nenhuma avenida à beira-mar com sorveteria, ou uma praia com ondas, por mais sujas que pudessem ser. Não tem calçadão, não tem malecon, não tem corniche, não tem quadras de vôlei, não tem surfistas. Na verdade, parece estar mais distante do mar do que Ulaanbaatar, na Mongólia, considerada a capital mais continental do planeta – isto se levarmos em conta que o mar Aral seja um mar, pois, caso contrário, o título ficaria com Astana, no Cazaquistão.

Os hotéis existentes em Cité Soleil eram para a prostituição portuária. Hoje, a placa de neon serve apenas para separar as pernas do corpo de algum hóspede ou funcionário que por um segundo de atraso não conseguiu atravessar a porta que o permitiria viver, ou sobreviver, no caso dos haitianos. No final, seu corpo ficou atravessado por uma marquise decadente de uma zona da luz vermelha de uma cidade caribenha que não atrai mais turistas, apesar de ter sido o principal destino da região nos anos 1960. O jornal haitiano, jogado no chão de uma calçada inexistente, talvez nem exista mais. Honestamente, não sei se a redação ficou de pé e quantos repórteres ainda possuem condições de escrever sobre a tragédia que assolou o país já marcado por ditaduras sangrentas como a de Papa Doc.

O Central Park continua como sempre. Um grupo de meninas americanas, de Ohio ou Illinois, apenas para usar os exemplos tradicionais, tirava foto diante de um lago com as águas descongelando devido à surpreendente temperatura de 7 graus para o frio inverno nova-iorquino, normalmente bem abaixo do zero. Dois casais de brasileiros passaram tentando encontrar o edifício Dakota, onde John Lennon morreu assassinado há três décadas. Fica ali, na rua 72, pouco antes do San Remo, que serve de residência para o Bono e a Madonna quando estão em Nova York. Não muito longe do 15 Central Park West, o edifício mais caro da cidade e personagem de documentário, na esquina da 62. O Museu de História Natural está a oito quarteirões para cima.

O Metropolitan e o Guggenheim, que abrirá nesta semana uma exposição do jovem artista londrino Tino Sehgal, se localizam do outro lado do parque que serviu de cenário para filmes por mais de oito décadas, no aristocrático e WASP Upper East Side, com hotéis como o Pierre e o Plaza, onde se hospedam bilionários sauditas, estrelas de cinema e banqueiros brasileiros. E também a loja de brinquedos F.A.O. Shwarz, onde estas mesmas pessoas compram brinquedos para seus filhos. A Universidade Columbia não margeia o parque, pois seus portões estão cinco quarteirões depois do final, na 116 com a Broadway. Todas construções sólidas. Algumas, do século retrasado, quando urbanistas souberam transformar a região norte de Nova York em uma área valorizada, apesar de longe de Wall Street, que, como o nome diz, servia de muro para o fim da vila onde holandeses e judeus vindos do Recife deram origem a esta que seria, ao lado de Paris, a cidade mais desejada do mundo.

Mas apenas na superfície estas duas cidades estão distantes. As duas, com pouco mais de oito anos de diferença, sofreram tragédias que marcarão eternamente as suas histórias. A 80 quarteirões do Central Park, dois aviões atingiram World Trade Center, matando 3 mil pessoas, bem perto de Wall Street. Eram estruturas supostamente ainda mais sólidas do que as dos prédios da Quinta Avenida, onde moravam algumas das vítimas. A solidariedade internacional voltou os olhos para a cidade. Inclusive alguns americanos que tradicionalmente olhavam torto para o cosmopolitismo nova-iorquino largaram tudo para vir ajudar no salvamento das vítimas. Agora, foi a vez dos haitianos se tornarem o centro das atenções mundiais. Se tropas foram enviadas ao Afeganistão para defender os americanos, outras desembarcaram no Haiti para ajudar os haitianos, já defendidos pelos brasileiros e outros integrantes das forças da ONU.

Além disso, as duas cidades se aproximam por serem os dois maiores centros populacionais haitianos do mundo. Isto mesmo, depois de Porto Príncipe, Nova York é maior metrópole haitiana do planeta. São 100 mil habitantes nativos, conforme registra reportagem da New Yorker, à venda em uma banca diante do Lincoln Center, a um quarteirão do Central Park. Isso sem falar nos americanos filhos de imigrantes do Haiti. Uma das haitianas é Gaele, irmã de Kym, sobre quem escrevi aqui. Hoje, tentei quatro vezes ligar para ela. Em todas, a mesma mensagem, depois de dois toques – “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Seria a conexão final entre o Central Park e a Cite Soleil.

Obs. Leiam as reportagens do Lourival Santanna e do Leandro Colón na edição impressa. Destaque para uma sobre a vaidade das haitianas. Eu já estou aqui no Central Park, mas o Estadão continua em Cité Soleil

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