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De Damasco a Aleppo – Assad não corre risco no curto prazo; mas cenário piorou

gustavochacra

29 de abril de 2011 | 12h06

no twitter @gugachacra

As manifestações contra Assad prosseguiram nesta sexta-feira. Em alguns jornais e agências de notícias, os títulos falam em protestos em Damasco, Latakia e outras cidades. Porém, se lerem os textos até o fim, descobrirão que foram apenas de 500 a 2 mil pessoas no centro da capital e mil na cidade costeira. Outros atos contra o regime aconteceram em Homs e Hama.

Estas manifestações não são suficientes para dizer que Assad corra um risco imediato. Como comparação, em 2005, um milhão de libaneses, em um país de 4 milhões, saíram às ruas para pedir a retirada das tropas sírias que ocupavam o Líbano. No Egito, centenas de milhares de pessoas se reuniram no centro do Cairo para pedir a queda de Mubarak. Quinhentas ou duas mil pessoas é muito pouco ainda. Talvez atos contra Lula ou Obama reúnam bem mais do que isso.

Claro, no Brasil e nos EUA não existe a violenta repressão síria. Centenas foram mortos nas últimas semanas. Outros, torturados e presos. A cidade de Daara está fechada e não dá para saber o que está ocorrendo. Muita gente deve ter medo de sair às ruas. Mas, apesar de tudo isso, as manifestações não são um ponto de inflexão, ainda. Conforme escrevi ontem, Assad correrá riscos quando protestos acontecerem em larga escala na capital, Damasco, ou em Aleppo, maior cidade da Síria. Insisto, até agora, Aleppo está imune a protestos. Ontem ninguém se manifestou contra Assad nesta histórica e cosmopolita metrópole síria.

Ao mesmo tempo, existe uma tendência de deterioração do cenário para Assad, indicando que, no médio ou longo prazo, ele corre riscos, assim como o seu regime. Há dois meses, quase ninguém previa protestos na Síria. Agora, eles se tornaram comuns em Latakia, Banias, Hama, Homs e Daara. Até uma semana atrás, não se previam rachas no Exército. Eles ocorreram, ainda que em números pequenos e no baixo escalão. Tampouco previam uma ruptura no Partido Baath. Mas membros a agremiação renunciaram em massa, ainda que irrelevantes para o comando do partido do regime. Todos são da região de Daara, e nenhum das grandes cidades.

Portanto, no curto prazo, Assad segue firme. No médio e longo prazo, ele corre riscos. A tendência é um impasse prolongado que pode terminar como Teerã em 2009, com vitória do regime, ou Egito-2011, com a queda do governo.

 Por enquanto, o Irã continuará patrocinando seus aliados em Damasco. O Hezbollah está a postos para ajudar Assad. A elite secular da capital e de Aleppo preferem a ditadura secular ao caos. Parte da população, incluindo os cristãos, temem o cenário de guerra civil do vizinho Iraque ou do Líbano dos anos 1980. Israel acha menos grave “o diabo que eles conhecem ao diabo que eles não conhecem”. Pelo menos, Assad sempre manteve a estabilidade na fronteira. Os EUA querem evitar mais um foco de tensão na região. Para completar, o líder sírio desfruta de mais popularidade do que Mubarak e Ben Ali. Até dois meses atrás, arriscaria dizer que ele conseguiria se eleger presidente, caso convocasse eleições. Hoje, não posso assegurar.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
 

 

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