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De Damasco a Ancara – Israel precisa recuperar a Turquia e ganhar a Síria

gustavochacra

15 de abril de 2010 | 09h09

“Nem todos árabes são muçulmanos e nem todos os muçulmanos são árabes. Árabes podem ser cristãos, muçulmanos, judeus e ateus. Os muçulmanos podem ser árabes, persas, negros, latinos, anglo-saxões, asiáticos ou de qualquer outra etnia existente no planeta”

Uma estratégia para enfraquecer e isolar o Irã seria se aproximar da Síria, sem perder a Turquia. Os EUA tentam atingir este objetivo, mas foram prejudicados por uma atitude do ex-premiê israelense, Ehud Olmert, no que pode ser descrito como “O Dia que Israel perdeu a Turquia e deixou de ganhar a Síria”.

Às vésperas do Natal de 2008, Olmert viajou a Ancara, capital turca, onde se reuniu com o premiê Recep Tayyip Erdogan. Por telefone, o primeiro-ministro turco conversava com o líder sírio Bashar al Assad, enquanto passava as respostas para o israelense. Literalmente, a Turquia mediava negociações de paz indiretas entre a Síria e Israel para a devolução das colinas do Golan aos sírios. Diplomatas dos três países admitem que um acordo estava próximo. Olmert retornou a Jerusalém e sírios, turcos e israelenses tinham um pacto de que um encontro do premiê de Israel com Assad seria o próximo passo.

O problema é que, dois dias mais tarde, Israel iniciou uma operação militar contra o Hamas na Faixa de Gaza. Não vou entrar na discussão se era certo ou errado o bombardeio contra o grupo palestino, que já discuti várias vezes aqui. O problema é que Assad e, acima de tudo, Erdogan ficaram irritados com Olmert por ter omitido seus planos na conversa em Ancara. Eles perderam a confiança  no israelense. Pior, o premiê de Israel consultou o líder egípcio, Hosni Mubarak, que é um inimigo político dos sírios e dos turcos, antes de atacar o Hamas. Dias depois, Erdogan teve a discussão com o presidente de Israel, Shimon Peres, em Davos.

O resultado do “Dia que Israel perdeu a Turquia e deixou de ganhar a Síria” foi a deterioração da imagem israelense no seu principal aliado no mundo islâmico (Turquia), com quem mantém estreitas relações militares e os judeus vivem bem há séculos. Também contribuiu para que Erdogan se aproximasse do Irã, que é um rival histórico dos turcos desde os tempos dos otomanos e dos persas, se recusando a apoiar as inócuas sanções defendidas pelos americanos. A Síria perdeu o entusiasmo em um acordo com Israel e continua a apoiar grupos hostis aos israelenses, como o Hezbollah e o Hamas.

Claro, a Turquia permanece aliada dos EUA. A Síria também melhorou as relações com Washington, que enviou um novo embaixador para Damasco, além de emissários de peso como o senador Jonh Kerry. Mas, para chegar ao dia em que “Israel recuperou a Turquia e ganhou a Síria”, os israelenses terão que batalhar, e muito.

Toco neste assunto, de um ano e meio atrás, porque hoje a Turquia é a maior defensora do Irã no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E a Síria o país com melhores relações com o Hamas, além de possuir uma aliança militar de amor e ódio com o Hezbollah.

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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