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De Damasco a Jerusalém – Blog visita as colinas do Golan, usadas como propaganda por Israel e Síria

gustavochacra

19 de julho de 2010 | 08h54

Apesar da estabilidade na fronteira, Israel e a Síria vivem em estado de guerra desde a criação dos dois países, no fim dos anos 1940, já tendo se enfrentado diretamente três vezes. Nas últimas quatro décadas, o centro do conflito são as colinas do Golã, ocupadas pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias (1967). A cerca de 50 km de Damasco, visitei  pela segunda vez a parte desta área disputada por sírios e israelenses que ainda está sob controle da Síria e da UNDOF (Forças da ONU para o Golã) – Israel anexou o restante do território, onde estão quase todas as vilas da região.

Os dois lados usam argumentos e propaganda em defesa de seus pontos de vista e também para culpar o inimigo pelos fracassos em negociações de paz. Israelenses argumentam que as colinas são necessárias para a segurança do país, apesar de usarem o Golã para outros fins, como o turismo e a exploração da água. A Síria diz que a ONU nunca reconheceu a anexação do território e acrescenta que interrompeu os ataques a Israel, apesar de patrocinar grupos hostis aos israelenses, como o Hamas e o Hezbollah, além de ser a principal aliada do Irã em todo o mundo.

Quem visita as colinas do Golã pelo lado sírio é apresentado a um roteiro elaborado pelo governo de Damasco para mostrar uma imagem negativa de Israel. A primeira parada são as ruínas da cidade de Quneitra, destruída pelos israelenses na retirada de 1973 – esta é única cidade devolvida em acordo de armistício mediado pelos EUA e hoje não é uma espécie de museu ao ar livre. Levam também a uma área de onde, a alguns metros de distância, se observam as vilas sírias do outro lado da fronteira, ocupadas por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, há 43 anos.

Propaganda

Ao observar o alto do Monte Hermon, símbolo do Golã e que separaria a Síria do Líbano, dá para ver torres de controle do Exército israelense. Israel, no inverno, também mantém estações de esqui nas montanhas, que são usadas para trecking nos meses mais quentes. “As colinas do Golã oferecem aos turistas uma autêntica experiência de cowboy nos seus ranchos com cavalos e gado. Os visitantes podem ir pegar cerejas morangos e outras frutas da estação”, informa em seu site oficial o Ministério do Turismo de Israel. No texto oficial, eles ignoram a palavra Síria e sequer citam riscos para a segurança dos visitantes.

A situação não é muito diferente no lado controlado pelos sírios. Em Quneitra, há uma maquete gigantesca  para retratar a totalidade das colinas, incluindo também áreas do Líbano e de Israel. Mas os  sírios chamam de Palestina o que hoje é o Estado israelense reconhecido pela ONU.

“Enquanto não houver paz, não iremos reconhecer Israel”, disse Mohammad Ali, responsável pela entidade de defesa das Colinas do Golã em Quneitra. Quando ocupou o território, Israel buscava impedir que os sírios continuassem os constantes ataques contra cidades israelenses do outro lado da fronteira. As colinas passaram a servir como uma zona de isolamento, deixando os sírios mais distantes do território israelense. Ao mesmo tempo, Israel começou a construir assentamentos no território, onde vivem hoje cerca de 17 mil colonos judeus.

Habitantes

Um número similar de sírios ainda residem no lado anexado por Israel em 1981, em ato não aceito pelas Nações Unidas. São em sua maioria druzos que rejeitam a oferta de cidadania feita pelos israelenses – os druzos palestinos costumam servir o Exército de Israel e possuem pouca relação com os do Golã.

Os estudantes podem cruzar para o lado sírio uma vez por ano, no início do ano letivo, retornando para visitar a família nas férias. O casamento é uma via única – o noivo ou a noiva que atravessar a fronteira não poderá voltar para o lado anexado por Israel, em um cenário próximo ao retratado no filme israelense “A Noiva Síria”, do diretor Eran Riklis.

Acordo de Paz

Além da questão de segurança, Israel passou a ver uma importância estratégica nas águas das colinas do Golã. Elas deságuam no lago Tiberias, também conhecido como mar da Galileia, que é a principal fonte de água doce de Israel. Caso os sírios voltem a controlar as nascentes, os israelenses temem que percam o controle sobre a água.

Por duas vezes, Israel e Síria chegaram perto de um acordo. A primeira, entre o então premiê Ehud Barak, hoje ministro da Defesa, com o líder Hafez al Assad, pai do atual presidente Bashar al Assad. A segunda, no fim de 2008, entre Assad e o ex-primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert.

Na primeira delas, Israel concordou em devolver todas as colinas do Golã, mas preferia restringir o acesso ao lago Tiberias (mar da Galileia). Na última, de acordo com entrevista que fiz com Assad em Damasco, Israel “concordou em sair de todo o Golã, não de apenas uma parte”. Os israelenses não confirmam a informação, mas as negociações, mediadas pela Turquia, naufragaram depois da eclosão da guerra de Gaza. Autoridades sírias explicaram melhor a versão de Assad para mim e acrescentaram que havia ainda um impasse sobre a água. Os israelenses permitiriam que os sírios usassem o lago para recreação, mas não para consumo da água e pesca.

Na questão da segurança, parece não haver problemas. Os dois lados já deixaram claro que seria uma retirada nos moldes do acordo com o Egito para a devolução do Sinai, de acordo com autoridades americanas. Os sírios passam a ter soberania sobre todo o Golã, mas a área precisa permanecer desmilitarizada. Os israelenses também poderiam continuar freqüentando o território para turismo, conforme eles fazem na área devolvida aos egípcios. E os colonos, como no caso da Faixa de Gaza e do próprio Sinai, seriam removidos.

Em 2007, quando visitei as colinas do Gola pela primeira vez, o então comandante das UNDOF (Forças da ONU para o Golã) Wolfgang Jilke, disse que Israel não teria problemas com segurança caso se retirasse das colinas. . Segundo Jilke, primeiro, porque hoje há aparelhos avançados, inexistentes nos anos 1960, que permitiriam o monitoramento. Em segundo lugar, porque, em qualquer acordo, a área seria desmilitarizada.

Tentei entrevistar o atual comandante, Natalio Ecarma, das Filipinas, mas não obtive resposta. Segundo Jilke, primeiro, porque hoje há aparelhos avançados, inexistentes nos anos 1960, que permitiriam o monitoramento. Em segundo lugar, porque, em qualquer acordo, a área seria desmilitarizada.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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