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Do Golã à Caxemira – Síria versus Israel; Paquistão contra a Índia (Bush e Obama)

gustavochacra

09 de novembro de 2010 | 01h28

Em setembro de 2007, eu estava na Síria. Naquele mês, Israel bombardeou uma instalação misteriosa dentro do território sírio. Os israelenses e o regime de Damasco nunca discutiram o assunto, mas especula-se que seria uma construção voltada para um programa nuclear secreto. Nunca saberemos. Eu, na época, cheguei a perguntar diretamente para ministro da Informação da Síria, que respondeu afirmando que o ataque era propaganda.

Independentemente do que era, Israel lançou um ataque contra a Síria que pode, de certa forma, ser considerado um ensaio para uma possível ação contra o Irã. E, ficamos sabendo agora pela autobiografia do ex-presidente George W. Bush, que o então premiê de Israel, Ehud Olmert, discutiu o assunto com o antecessor de Barack Obama na Casa Branca.

Segundo Bush afirma em seu livro Decision Points, lançado hoje em Nova York, ele se posicionou contra uma ação de Israel na Síria, afirmando que “bombardear um país soberano sem aviso ou uma justificativa anunciada poderia criar um grave revés”. O líder dos EUA também descartou enviar uma missão para verificar o que realmente existiria nesta instalação pois colocaria em risco a vida dos agentes americanos. No livro, Bush acrescenta que Olmert discordou dele e levou adiante o ataque.

O irônico é que a ação aparentemente foi um sucesso. Não houve revés. Os sírios não reagiram. E, de uma forma que sempre me intriga, ninguém no Oriente Médio saiu condenando publicamente Israel. Nem mesmo o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Fosse uma instalação nuclear ou um galpão abandonado, o certo é que não existe mais.

E o mistério continua. No fim de 2008, antes da Guerra de Gaza, Olmert teria pedido autorização dos EUA para atacar o Irã. Bush já estava em fim de mandato. Mais uma vez, o americano respondeu que não. Desta vez, porém, o impopular premiê israelense, também no fim de seu período à frente do governo, concordou. No fim, entrou em guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza.

De todo o episódio, aprendi uma lição. Os EUA e Israel não querem que Bashar al Assad se enfraqueça, ao mesmo tempo que querem que o regime de Damasco não se fortaleça. Pode parecer uma contradição, mas não é. Nada melhor para os israelenses do que um país estável, como a Síria, na sua fronteira. Basta comparar com o Líbano. Desde 1973, nenhuma ação foi levada adiante pelos sírios contra Israel, que ocupa ilegalmente, segundo a ONU, as colinas do Golã.

Portanto, Assad forte é sinal de estabilidade e radicais religiosos longe do poder – não há nada mais secular no mundo árabe do que o governo sírio. Mas a Síria forte, na visão israelense e americana, não teria o mesmo resultado. Neste caso, Damasco teria mais poder de barganha e poderia ser uma ameaça aos israelenses.

Logo, a equação de Israel e dos EUA – é Assad forte, Síria fraca.

E, agora, deixo a pergunta para vocês. Por que a Síria e Israel não fazem a paz? Se Israel fez com a Jordânia e com o Egito, por que não com os sírios. O Assad me falou, pessoalmente, que gostaria muito de negociar. E deu sinais disso até 2008. Mas, como sabemos, nada de paz. Por que?

Texto 2 – Obama fez bobagem na Índia?

O presidente Barack Obama tomou uma decisão arriscada ao defender a inclusão da Índia no Conselho de Segurança das Nações Unidas sem levar em consideração as preocupações geopolíticas do vizinho Paquistão. Diferentemente do Brasil e da Argentina, os dois países asiáticos são rivais militares e não mantêm boas relações.

Como ambos possuem bombas atômicas, o cenário atual é de equilíbrio. Com uma cadeira permanente no órgão decisório máximo da ONU, esta delicada balança de forças iria pender para o lado indiano. Não seria apenas uma questão de vaidade, como ocorre com o México em relação às aspirações brasileiras.  Os paquistaneses e os indianos já travaram três guerras desde a independência dos dois países em 1947, com dezenas de milhares de mortos.

Até hoje, Islamabad reivindica a região Caxemira. Este território, apesar de ter maioria islâmica, como o Paquistão, ficou com os indianos na partilha. Quando as duas nações ficaram independentes, eles tentaram deixar áreas majoritariamente hindus com a Índia e as muçulmanas com os paquistaneses – na época, Bangladesh integrava o Paquistão, ficando independente nos anos 1970. Também ocorreram transferências populacionais. Apenas na Caxemira este processo fracassou.

Em sua luta pelo território controlado pela Índia, os paquistaneses terceirizaram os ataques, dando suporte a grupos extremistas islâmicos. A maior parte destas organizações são ligadas a grupos hostis aos EUA tanto no Paquistão como no Afeganistão, sendo alguns deles inclusive aliados da Al Qaeda.

Por este motivo, o Paquistão mantém uma relação dúbia com os EUA. Ao mesmo tempo que é considerado fundamental na luta americana contra o terror, além de ser vítima de terrorismo, o regime de  Islamabad reluta em combater aqueles grupos radicais que contribuem no conflito contra a Índia. Os paquistaneses também não apreciam a aproximação do presidente afegão, Hamid Karzai, com os indianos.

Outros países islâmicos tampouco simpatizam com a ideia de aumentar o CS da ONU sem incluir uma nação muçulmana – neste caso, a Turquia, o Egito e Indonésia seriam os favoritos, não o Paquistão. Além do deles, a China também não vê com bons olhos a sugestão de incluir a Índia, um rival político e econômico, sendo um país com mais de 1 bilhão de habitantes e democrático, diferentemente dos chineses.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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