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De Damasco a Jerusalém – Para ter paz, Síria precisará escolher entre Irã e Israel

gustavochacra

20 de setembro de 2010 | 09h07

Os EUA decidiram ampliar as negociações de paz, antes restrita a palestinos e israelenses, a outros países árabes, conforme escrevi aqui na semana passada. O processo, ainda em fase de consulta indireta, tem como objetivo resolver o conflito de Israel com a Síria e o Líbano, além do estabelecimento de relações do Estado judaico com as nações do Golfo Pérsico e do Norte da África. Outro efeito seria o isolamento do Irã.

Os primeiros sinais claros foram dados na semana passada pelo enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, George Mitchell, depois de encontro com o presidente da Síria, Bashar Assad, em Damasco, e com o premiê libanês, Saad Hariri, em Beirute. Segundo o negociador americano, o presidente Barack Obama defende acordos de Israel com Síria e Líbano para contribuir para a paz na região.

A estratégia não é nova. Alguns assessores de política externa de Obama a defendem desde a campanha de 2008. No início do mandato, a chamada “via síria” chegou a ser prioridade em detrimento da palestina, antes de ser deixada de lado. Com a retomada nas negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, os EUA decidiram reabrir os contatos com Damasco com o temor de um fracasso no diálogo entre o premiê Binyamin Netanyahu e o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Além disso, negociações com a Síria podem facilitar a estabilização do Iraque e o isolamento do Irã. No primeiro caso, americanos e sírios adotam posições similares em Bagdá, onde defendem um Estado não sectário. No caso do Irã, segundo artigo da revista Foreign Affairs escrito por Robert Malley e Peter Harling – analistas do International Crisis Group -, “negociações de paz entre Israel e a Síria afetariam mais os cálculos de Teerã que novas rodadas de sanções na ONU”.

Autoridades sírias indicam que o diálogo já começou, mas está aquém do desejado por Damasco. Segundo apurei, Israel impõe como condição o rompimento de laços entre Síria e Irã antes de debater outros temas. O presidente Assad não estaria disposto a abrir mão de seu principal aliado sem a certeza de que terá de volta as Colinas do Golã, ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967).

“A Síria está muito interessada nas negociações e quer o Golã de volta. Além disso, com uma economia fraca, Damasco sabe que um acordo de paz com Israel levaria ao fim das sanções unilaterais dos EUA”, diz Joshua Landis, professor da Universidade de Oklahomaque viveu na Síria e é um dos raros especialistas em política do país árabe.

“Mas Israel não vê necessidade na devolução. Na avaliação israelense, já existe uma espécie de paz com os sírios, pois a fronteira entre os dois países é considerada mais calma do que as com o Egito e a Jordânia, que possuem relações com Israel”, acrescenta.. Um empecilho é que os israelenses veem os sírios com desconfiança por causa do apoio ao Hezbollah e ao Hamas.

Nem todos os países árabes são inimigos de Israel. Egito e Jordânia têm tratados de paz com os israelenses. Yemen e Iraque, dependentes dos EUA, são indiferentes. Apenas a Síria, o Líbano e os palestinos têm conflitos com Israel. O Irã, que é persa, apesar de não ter disputas territoriais com Israel, é considerado seu maior inimigo.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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